sexta-feira, 14 de abril de 2017

O último dia

O que você faria se soubesse que tem somente mais um dia de vida?


Pedro acordava todos os dias às cinco da manhã, detestava faltar ao trabalho. Os motivos e justificativas para sua resiliente assiduidade, porém não eram tão nobres. Era um sujeito convencional, tíbio mesmo e temia apenas ser demitido. Bem, há quem pense que seja perfeitamente normal que um sujeito se preocupe em perder seu emprego e, por isso, justifique o temor. Mas, convenhamos, viver uma vida de trabalho sob a ameaça da demissão não é fácil pra ninguém, não é nada saudável. E o ambiente competitivo de sua empresa criava esse tipo de expectativa. A meta ou a rua, esse era o mantra do terror. E, embora não gostasse nem um pouco do seu trabalho, detestava ainda mais a ideia de mudar de emprego, tinha verdadeira ojeriza por mudanças. Também considerava vagabundos "aqueles sujeitos desempregados". Pensava assim, mesmo daquelas pessoas nas filas de emprego por aí. "Mais uma arruaça!" Detestava arruaça. Paranoicamente, imaginava sempre haver alguém conspirando para puxar-lhe o tapete no trabalho e tomar-lhe a promoção; mesmo sabendo que nos últimos dez anos não houvera promoção alguma em sua empresa. (- É uma questão de contenção de despesa! Afirmava a chefia; – nossos colaboradores precisam compreender - complementavam)[1]. Mesmo assim, cogitava ele, "quando forem liberadas as promoções, quero estar qualificado".
Na última terça-feira, ontem, porém, Pedro faltou ao trabalho, - coisa difícil! O pessoal do RH informou que - foi por “problemas de saúde”. Teve que ir ao consultório médico pegar o resultado de uns exames que havia feito – ultimamente vinha sofrendo de fortes dores de cabeça e nos últimos dez anos, como dito, recusava-se a faltar, nem mesmo tirava suas folgas-prêmio. No entanto, um desmaio na última semana o levou a uma quebra de sua rotina "a coisa apertou, tive que procurar um médico".
Ficamos sabendo depois que ele tinha recebido um diagnóstico de câncer na cabeça que dizia o seguinte: câncer na base anterior de seu lobo frontal. Para o médico, o câncer estava tão próximo de seu hipotálamo que na verdade ele não conseguia explicar como Pedro ainda estava vivo, andando e se comunicando.
Talvez as doses cavalares de analgésicos que ele vinha tomando nos últimos dias pudesse explicar alguma coisa, mas sua sobrevida para o experiente neurologista era um verdadeiro fenômeno. Ao que se sabe o médico foi duro, direto, sem rodeios no diagnóstico e explicou como quem lesse um obituário: - Bem, senhor Pedro, as noticias não são boas. O tumor em sua cabeça encontra-se já em estado tão avançado que há em seu crânio uma verdadeira bomba relógio. Tratar-se de um tumor maligno cuja multiplicação celular acontece numa taxa tão exponencialmente alta que sua sobrevida pode ser calculada em horas até que o câncer atinja seu hipotálamo e detone seu sistema nervoso central colapsando inclusive o sistema nervoso autônomo, o que implicará numa consequente falência dos seus órgãos. É quase certo que o senhor dispõe de no máximo mais algumas horas de vida.
Pedro ouviu tudo aquilo com um olhar distante e vazio, parecia meio desligado. Na verdade estava concentrado, apenas lembrara que havia esquecido seu grampeador em cima da mesa, certamente um de seus colegas estaria usando seu grampeador - cogitava.
Para o médico não era possível decifrar na expressão facial de Pedro se ele atinava para a seriedade da situação, para a gravidade de seu diagnóstico ou se estava em estado de choque. O estranhamento do médico só aumentou quando viu seu paciente se levantar da cadeira e sair da sala cumprimentando-o, desejando-lhe um bom dia e até breve. Diante disso, Dr. Renato, experiente oncologista, não teve dúvidas, de fato seu paciente estava em estado de choque. Pensou em perguntar se Pedro estava acompanhado, mas hesitou...
Pedro não tinha parentes na cidade e há pelo menos dez anos não entrava em contato com sua família. O motivo não se sabe, mas tudo indica que tenha simplesmente se afastado e deixado de se comunicar. Logo o tempo e a distância tornaram-se eles mesmos um constrangedor empecilho. A partir daí por bloqueio ou vergonha passou a evitar o contato. Razão pela qual os laços fraternos foram se esgarçando como um tecido velho. Tanto que sequer lembrava se seus pais estavam vivos ou mortos. Ao que parece essas coisas de família não lhe interessavam mais, entediavam-no mesmo.
O som estridente de seu despertador soou às cinco da manhã, era então quarta-feira. Não costumava tomar banho antes de sair para trabalhar. Usava lenços umedecidos. Apesar de ter um moderno e agradável chuveiro em seu banheiro, seguiu a mesma rotina de sempre. Levantou-se. Sempre pelo lado direito da cama. Enfiou os pés nas sandálias. Desligou o alarme.  Deu a volta na cama e apanhou seu relógio de pulso que deixava na estante, sempre do lado oposto. Não se espreguiçou, apenas rumou para o banheiro. Parou diante do espelho e se olhou por uns segundos, como se houvesse notado alguma coisa estranha, mas, nada. Começou sua sessão de lenços umedecidos nas axilas, no pescoço, nas genitálias. Em seguida jogou um pouco de água no rosto. Fez um gargarejo. Cuspiu na pia. Olhou de um lado para o outro o rosto, "a barba ainda esta boa". Vestiu-se andando. Não costumava presta atenção em detalhes, a camisa tinha dois vincos na manga, a calça também.
Aproxima-se do horário em que apanha o 907, no ponto em frente ao seu edifício. "Se perder o 907, vou ter que pegar pelo menos duas conduções até o trabalho; não quero correr o risco de me atrasar". Tomou um gole de café amanhecido e frio mesmo e saiu. 
Apesar de pegar o mesmo motorista e o mesmo cobrador há quase dez anos, não costuma falar com ninguém e, quando falava, balbucia somente monossílabos ora ou outra dissílabos, se necessário. Com os outros passageiros, nem pensar, preferia preencher as palavras cruzadas que baixara num aplicativo do celular. No ponto próximo a Paulista desceu de cabeça baixa e andou mais duas quadras, atravessando por uma praça com belos jardins. Nem conseguira perceber que apesar do clima as azaleias floresciam. Entra no edifício Montreal, o elevador é lento, cheio e o ar condicionado está quebrado, são pelo menos cinco paradas até chegar ao seu piso, mesmo assim, insere seu cartão exatamente no horário.
Sua mesa fica distante de qualquer janela, em todo caso a mais próxima dá para a parede do prédio vizinho, é cinza o dia todo! Em sua baia descobre que de fato alguém usou seu grampeador, "provavelmente Renato, o gordo, está sem grampos"! Olha meio emburrado para os lados e da início a sua rotina. Basicamente, carimbos, registros eletrônicos e escaneamento de documentos pertinentes a contratos de seguros. A julgar pelo volume de documentos em sua mesa o dia vai ser longo. Dia comum, maçante. Apesar da insatisfação e da rotina, vendeu todas suas férias nos últimos anos. Quem sabe venderia a deste ano também!?
Aproxima-se a hora do almoço, seu colega de baia convida-o para almoçar: - hoje tem feijoada no restaurante do primeiro andar! - Não, obrigado, pedi uma marmita. A marmita barata já está quase fria, o alface dentro da comida já está murcho, e o tomate por cima da comida dá ao arroz um desagradável sabor azedo. Come tudo na sala do refeitório da empresa. Tem pressa, "há muito o que fazer"!
O retorno rápido ao trabalho lhe causa alguma náusea, mas nada que alguns analgésicos não resolvam. Desde há algum tempo passou a tomar analgésicos por qualquer motivo. Durante o resto da tarde, chega a ouvir o ruído da chuva que nos últimos dias tem caído no meio da tarde. O clima varia tanto nesta época do ano em São Paulo que se tem a impressão de ter vivido pelo menos três estações em único dia. Calor ao meio dia, chuva no meio da tarde e frio ao entardecer. O tempo escoa lento, porém implacável. Mas, a maçante rotina o detém entre carimbos, transcrições e digitações.
No fim do expediente algo de inusitado acontece, os colegas o convidam para um happy hour, - Pedro, hoje vamos tomar uma cerveja e ver jogo no bar lá da praça! Quer vir conosco? Diante do embaraçoso convite recusa. - Não. Tenho umas coisas para resolver lá em casa. - Ok!
No fim da tarde, um minuto de distração sabe-se lá com o que o atrasa, mas, enfim, consegue pegar seu ônibus, que, no entanto, quebra a cerca de três quadras de sua casa. Sem alternativa, decide seguir a pé o resto do caminho. O dia ainda estava claro e a chuva do meio da tarde havia deixado o céu azul e límpido como nunca para este horário. O frescor do ocaso favorecia e as pessoas se juntavam nos bares dá calçada para o happy hour. Não prestou muito atenção, como sempre baixou a cabeça a apertou o passo rumo ao seu destino.
Na porta do apartamento sentiu algo estranho. Cismou por uns segundos antes de enfiar a chave na fechadura, ponderou..., parecia considerar algo, mas mesmo assim, num movimento quase que mecânico, quase que automático, virou a chave. Tonteou e caiu ali mesmo. Só sobre a soleira...
Encontraram-no assim mesmo no dia seguinte, metade do corpo para dentro do apartamento e as pernas para fora. Comentavam no dia seguinte durante seu velório.
Após o enterro os colegas de trabalho resolveram tomar uma num boteco ali mesmo, próximo ao cemitério. Foi Renato, o gordo, herdeiro oficial das miudezas de escritório de Pedro, quem puxou o assunto...
- O que vocês fariam se soubessem que tinham somente mais um dia de vida?




[1] Muito embora, os últimos três balancetes trimestrais da empresa tivessem apresentado apenas índices positivos.

segunda-feira, 27 de março de 2017

FOLHETIM 02 - SÚBITA REPENTINA

DA IDA À CONVENÇÃO

OU

UM PAPO DESCONFORTÁVEL EM UMA VIAGEM DE 09 HORAS

Nos dias que ficara na cidade interiorana seguira a cartilha como um digno príncipe em treinamento. Fora uma viagem lenta, em companhia de Íris, vizinha de baia do escritório, chefe do setor de relações públicas da empresa, e Nestor, velho fumante, rabugento e um dos donos da maior empresa de arquitetura e construção civil de São Paulo, a Agamedes S/A. 
Chris ficara o tempo todo no banco de trás de um carro automático, grande, confortável e com ar condicionado muito gelado, que o fazia esquecer o calor externo do verão de novembro. Vez ou outra, o conforto do ambiente refrigerado era incomodado por aquele Nestor que, guiando os empregos dos dois passageiros e também o próprio carro, sentia-se no direito de comandar a falência dos pulmões alheios, abrindo a janela e fumando um cigarro. Em menos de meia hora, outro. E depois outro. 
Para romper o silêncio e mostrar-se determinada a animar quaisquer tipos de situações sociais, até mesmo uma viagem de nove horas de carro com um chefe que conseguia extrair de um sim, um não, Íris puxava assuntos perdidos, desde o ambiente até a rotina diária dos companheiros de trabalho, com a habilidade de promover, naquele momento, não uma viagem para um evento de trabalho, mas um trabalho que era viajar para um evento de trabalho. A cada pergunta, Chris sentia-se apertado no banco de trás, envolvido em inúmeras resoluções possíveis que não vinham a colocá-lo em alguma enrascada, quer com o velho, quer com Íris.
- Então, Chris, como estão as coisas na área de projetos?
E ele respondia com sentenças que não definiam nem um estado de extremo stress, nem de um relaxamento completo. 
- E a galera lá do projetos, dizem que eles são super animados! São muito envolvidos com os outros departamentos!
E acabava que aquelas perguntas lhe stressavam mais do que realizar os projetos isolado numa baia, seguindo o protocolo de uma rotina repetitiva que era ajustar detalhes matemáticos de um desenho digital numa tela de computador.  Não era bom com as palavras. Não tinha o traquejo nem o estudo daquela garota esperta. Mas enxergou uma brecha que poderia lhe tirar daquele rumo de prosa e talvez despertasse ao velho a vontade de abrir a boca:
- Então, quais são os planos? Eu, bem, até agora, não entendi muito bem porque tenho que acompanhá-los nessa viagem... Não que eu não desejo estar aqui, não é isso... Só que eu acho que sou mais útil no escritório... Bem, é... Não que...
- Cala a boca, diabo! - conseguira quebrar o silêncio do velho. - é um inferno ficar ouvindo esses seus mi mi mis. Você não contou nada pra ele, não?
Íris sorriu e como uma gatuna das palavras, soube lidar com aquele climão com muita sapiência:
- Em uma viagem de nove horas, a gente preparava ele melhor do que deixá-lo preocupado a semana inteira. Ele é do projeto, vai que erra um número e PUF! Lá se vai um edifício abaixo... Mata pessoas... Sabe como é?
- Você tem toda razão. - o velho não abria muito bem o olho. Tinha sombrancelhas grossas e expressão amarrada que deixava os olhos apertados, quase invisíveis. Na primeira hora, causou certo receio tanto em Íris como em Chris, mas as curvas, os faróis e o limite de velocidade eram respeitados com maestria. Ou era um piloto automático, ou algum tipo de sexto sentido do velho. - Esse imbecil ia esquecer tudo mesmo. - Chris não entendia aquilo como uma ofensa. Nunca. - Você é neto do Trofônio Agamedes, o homem que dá nome a nossa empresa. Seu avô, junto do irmão mais velho, foram os maiores arquitetos de sua geração. Construíram edifícios de grande destaque em São Paulo e em outros Estados do país. 
Chris não entendeu os motivos de relembrar uma história conhecida. Mesmo a empresa que trabalhava levar o nome do avô, ele não tinha parte alguma na empresa, pois o avô morrera pobre, passara a pobreza para os filhos e só os netos começaram a encher um pouco os bolsos. No fim da vida, seu avô assumira que todas as suas construções foram realizadas com matéria-prima roubada e doou toda sua riqueza, com exceção da casa que morava com sua esposa, para melhorias sociais de toda região que explorara ilicitamente. Já não tinha mais tempo de vida para ser preso e morrera meses depois do depoimento. A família foi parar nas mídias nacionais e internacionais. Todos acabaram esquecendo do evento, até os arquitetos. Chris nunca sofrera para arrumar empregos na área de arquitetura e ninguém nunca comentara sobre o império de seu avô. Até entrar na Agamedes S/A. Lá, todos sabiam da história do velho, que era lembrada anualmente nas festas de fim de ano.
- Não entendo...
- Então, garoto, te trouxemos para que você sorria e repita a todos as histórias de seu avô. Para quem conversar com você, com exceção de mim e a bonequinha aqui, você é uma revelação naquela empresa. Uma revelação, porque herdou, da porra do seu avô, o conhecimento de um velho safo! 

Íris sorriu e Chris sentiu-se amiudado no banco traseiro. Era o neto que menos se interessara pelos passados familiares, mas que tivera mais contato com seu avô.

sábado, 18 de março de 2017

FOLHETIM 01 - SÚBITA REPENTINA


- Uma cerveja por favor. Para acabar com o horror que é ser Atlas. 



O telefone do quarto tocou. 
- Senhor, são oito e cinquenta.
Um pouco tangido pela confusão de não saber as dimensões de onde estava deitado, agradeceu num ronco silencioso, devido a dificuldade de tornar verbo as sentenças que pensava. As primeiras palavras do dia sempre lhe saíam incompreensíveis. Sentiu na cabeça o peso de dois mundos e não via a hora de arrumar as malas e seguir estrada. Participar de eventos empresariais sempre fora uma grande chatice quando não se tinha vocação para aquilo que fazia. Fingir sorrisos, esboçar reações, entender caretas, falar na hora exata, o verbo que se esperava, na aspiração que se cartilhava. Essas coisas todas lhe confundiam em algum momento. Seu forte sempre fora o manuseio artístico de miniaturas plásticas. A criação de humanos e animais inanimados. De bonequinhos à semelhança de criaturas reais, vivas, que perambulavam seu mundo. As pessoas chamavam de brinquedinhos bizarros, piadinhas de mal-gosto, o que ele afirmava, internamente, arte! A nova arte! A viagem fora essencial para entrar de cabeça nesse novo universo que começava a ganhar legitimidade social.
Tropeçara duas ou três vezes no receituário de conduta do outro mundo que habitava e tinha de enfrentar pelo menos aquela semana inteira. Vacilou ao pular algumas etapas daquela maldita carta de príncipe maquiavélica estabelecida na cabeça de todo homem de negócios em produção. Aquelas etapas do como se comportar fora de seu lar, numa cidade distante daquela que sempre vivera. Em meio a chefes, clientes e uísque de refil, viu-se comprometido pela disposição social de testar seus limites etílicos e pela necessidade institucional de fazê-lo sem ultrapassar os limites naturais do corpo. Sentindo-se numa batalha de reinados, foi bobo da corte, quando deveria exercer a simples função de um coadjuvante de acontecimentos reais. Acostumado com a cerveja, teve de consumir aquela tortura que lhe torrava a garganta e pouco a pouco o tornava um debilóide IN na relação social com aqueles homens dessemelhantes. O uísque, que todos enchiam o peito para dizer que tomavam porque descia bem, lhe causara um rombo espiritual e fonético que ele achou irreparável na noite passada. Após dois copos, sentia sua língua mole e já não conseguia distinguir, fisicamente, enquanto falante e ouvinte, bilabiais, fricativas, oclusivas, surdas e sonoras. Nem tantas outras. Impulsionado por um santo ruim, pedia mais copos, como se conseguisse ser capaz de controlar aquelas sensações pelo agrado do vizinho que lhe empurrava sempre um a mais. Mais um, mais um. 
- Vira!
E o retardado virava! 
-Vira!
E virava. E ria. E craseava todas as palavras terminadas com vogais, semelhantes ou não, inventando, na tentativa de um português formal, uma língua germânica com duas ou três entonações fonéticas por palavra. 
Eis que, para o desafortunado inexperiente, o limite orgânico é atingido das maneiras mais cômicas em lugares mais inapropriados. Falando com um dos clientes, que encontrava-se em condições brandas de alcoolismo, sentiu o mundo retornando em sua garganta. A pressão de todos os seus órgãos em manifesto.
- Não aguentamos mais, seu imbecil!

Do estômago ao esôfago, sentindo um breve e rápido desprazer anal, vomitou. Fora, talvez, o queijo. O queijo, o líder da rebelião, ou o bucha de canhão que vem a frente, ordenado pelo General Uísque. Nunca gorfou no colo de um homem antes. Muito menos um homem tão importante como o cliente de seu chefe. Também nunca desmaiou após um vômito. Muito menos um desmaio de vinte segundos, que só lhe custara o desprazer de sentir o cheiro de seu vômito misturado ao tecido do terno importado de seu cliente estrangeiro. Aquele conjunto todo, fez com que ele sentisse ainda mais ânsia e, tomado pelo desconforto físico, sentou muxoxo no lugar de qualquer um e recebeu a atenção de pessoas, das mais desconhecidas, que lhe ofereceram água e outras coisas mais. 

domingo, 12 de março de 2017

O MENINO, O VELHO E A BICICLETA.

Todos os dias quando era criança ele pegava carona na bicicleta daquele velho. 
Sem dúvidas era muito gostoso vê-lo sentir o vento em seus cabelos. 
É incrível, quando somos crianças como coisas aparentemente banais, aparentemente simples, aparentemente singelas, nos deixavam sempre muitíssimo felizes (pegar caronas de bicicleta).
_ Suponho que sonhava ele próprio percorrendo as ruas do bairro com sua pequena bicicleta.
_ Desconfio que imaginava todo o trajeto em sua pequena cabeça, creio que já fosse capaz de recriar em sua mente todo o percurso que costumeiramente faziam.
Enquanto seus sonhos de meninice não se realizavam, guardava e aguardava com carinho os passeios pelo bairro.
Quando se é criança todos os dias são mais belos, mais coloridos, são multicoloridos os dias...
E, a repetição de um trajeto que para muitos poderia parecer enfadonho, para seus olhos curiosos, “heraclitianos” olhos de criança, todos os dias eram um novo dia, um novo mundo.

Certo dia então, como de costume, sentou-se a beira do portão para aguardar ansiosamente a chegada do velho....
Sempre ansioso, sempre receoso...
Para descontrair apanhava pequenos seixos pelo chão e atirava as pequenas pedras na rua, nas coisas que via próximo como se contasse o tempo...
Mas, neste dia sua espera se prolongou, se estendeu demais...
O velho não apareceu, 
Por dias a fio ele esperou
Mas o velho não mais passou.
Em seu pequeno semblante era possível perceber um pesar profundo.
Parecia claro que pela primeira vez em sua breve existência um sentimento de vazio absurdo, abismal lhe tomava peito. 
_ Um terrível vazio no peito!
_ Pude notar que por noites a fio sonhou com seus divertidos passeios. Durante dias imaginou, chegou inclusive a criar mapas de seus costumeiros trajetos, - é bem provável que tenha sonhado/pensado com novos planos para seus passeios...
Passado algum tempo, os dias, sentava-se em frente ao portão e aguardava, agora; no entanto, na certeza da incerteza.
Até que tomou coragem, levantou-se, não olhou para traz, nem pediu licença, sequer titubeou no primeiro passo, partiu...
Pois-se a caminhar, e refez a pé todo aquele percurso que faziam juntos de bicicleta. Olhou os mesmos lugares, as mesmas pessoas da rotina de seus passeios passados.
Numa esquina, a distancia, avistou numa banca dois senhores que os viam e os cumprimentavam todos os dias. Reparou que um dos senhores olhou para o relógio e olhou para traz, como quem aguardasse alguém que ainda viria a passar. Parou por um momento, esperou, olhou... Nada!
No caminho de volta nem lhe pareceu nem apareceu nada de novo. Teria seu olhar empobrecido? Sua vista ficado dura como o asfalto!?
Ao chegar em casa olhou fixamente em meus olhos com uma profundidade inquietante - angustiante, – parecia meditar consigo –, que estaria ele pensando? Deveria eu ainda lhe dizer algo sobre o velho? Que não viria hoje e nem volverá jamais? É tempo de falar das "durezas da vida"?
Quando ele de súbito exclamou/suspirou: 
"Ah!!! Mamãe, então é assim!? A gente vem para este mundo olha, e um dia simplesmente desaparece!?"

domingo, 9 de outubro de 2016

A IRONIA DE UM NORDESTE LIBERAL



O comentário abaixo havia sido redigido numa rede social em função dos resultados das eleições de 2014.


Hoje, como se sabe 2016, os resultados daquela eleição não foram respeitados em nosso país, houve um golpe de Estado protagonizado pelo legislativo em anuência do sistema judiciário. Alias, o projeto do golpe, penso eu, foi gestacionado no interior do próprio sistema judiciário.

Donde se pode deduzir que o neoliberalismo sequer respeita o liberalismo. Mais resumidamente, é golpe mesmo.

Ora, se admitirmos que os nordestinos estão pensando com o estômago quando votam neste ou naquele partido, então temos necessariamente que assumir que o que está em pauta é justamente aquilo que caracteriza o fundamento basilar do pensamento neoliberal, do livre mercado, isto é, o "individualismo". Quem pensa com o estômago realiza na forma mais bruta, mais radical o pensamento individualista - caracterizado pela lei da sobrevivência característica central, chave do capitalismo moderno.
Consequentemente, a crítica à essa atitude jamais, em hipótese alguma, poderia admitir o estatuto da "alienação". Primeiro, por que há a questão da incomensurabilidade do conceito, caro a teoria marxista - ao materialismo histórico - que comporta em seu bojo conceitos ou entidades conceituais negadas e, em certos aspectos, contraditadas pelo liberalismo da escola neoclássica de economia.
Segundo, e ainda sob o mesmo aspecto, alegar a alienação ou qualquer outro preconceito de caráter metafísico para justificar a discordância com essa posição - o voto neste ou naquele partido - implicaria em admitir que há uma teoria econômica que define as condições da realidade de maneira definitiva, isto é, seria o mesmo que afirmar que existe uma, e somente uma verdade que descreve o espectro econômico em qualquer sociedade em todos os tempos, negando, portanto a história ou as circunstanciais históricas - o que caracterizaria obviamente uma posição "dogmática".
Deste modo, se acolhermos que a disputa política constitui somente uma das possíveis empresas na realidade econômica mais global, temos que considerar que o que esta em jogo é justamente a "lei da oferta e da procura", onde o que determina o valor do produto não é o trabalho empregado para realiza-lo (nem as propagandas deste ou daquele governo, nem os programas sociais etc.), mas, como é amplamente admitido pela corrente econômica neoclássica, o nível de satisfação dos indivíduos tomados isoladamente.
Assim sendo, para concluir momentaneamente essa argumentação, o que vemos acontecer nestas eleições é exatamente o exercício da liberdade de escolha preconizado e amplamente reivindicado pelo pensamento NEOLIBERAL.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Lembrança sobre a questão da soberania popular na democracia brasileira

Lembrança sobre a questão da soberania popular na democracia brasileira
A jovem república presidencialista brasileira, considerando a entrada em vigor da Constituição cidadã, nasceu com um pequeno vício, bastante comum, aliás, no Ocidente; a saber, a restrição ao possível exercício do poder político pelo povo, assumido formalmente como protagonista na Carta Magna.
Os legisladores, que representam interesses de grupos econômicos de diversos setores (vale manifestar o aparente óbvio a desavisados), fizeram grande esforço para apresentar uma Carta Magna à altura da efeméride - "fim" de duas décadas de ditadura e "nova república" - e intelectuais e imprensa oficiais até hoje não escapam do gênero epidítico quando se referem ao texto maior do arcabouço jurídico brasileiro. O esforço foi tão estupendo, e reconhecido, que muitos parlamentares ocupam uma cadeira cativa até hoje no legislativo federal. Mas, mesmo com tanto afinco, não conseguiram promover, ao mesmo na letra, o que soa auspicioso no parágrafo único do primeiro artigo: o exercício direto do poder político; ao contrário, restringiram ao máximo tal possibilidade. Ficou o povo com o louvado direito ao voto a cada quatro anos (!) e com os menos apreciados e instigados plebiscito, referendo e iniciativa popular.

Quando se trata de exercício do poder político, não há equilíbrio entre o povo e os delegados dos três poderes. Fica uma minoria eivada de privilégios - abonados pelos ricos - a defender interesses privados, enquanto ao povo resta apenas o dever de obediência a leis, que são estranhas ao interesse popular, sobretudo essa que define e limita seu poder político a reconduzir aos postos públicos aqueles que vão manter os direitos como privilégios.

domingo, 22 de novembro de 2015

Notas sobre obstáculos epistemológicos


Creio que provavelmente uma das boas contribuições que o filósofo Gaston Bachelard legou para a posteridade filosófica tenha sido seu conceito de “obstáculo epistemológico”. Porém, quando se busca apreender na obra epistemológica do filósofo francês o sentido dado pelo mesmo ao conceito de obstáculo epistemológico, a primeira impressão é, para a maior parte dos leitores, que não se trata de uma; mas de várias definições para o mesmo conceito. Entretanto, arriscamos a afirmar que muito embora, sob certo aspecto, o filósofo faça realmente variar "os conceitos", de tal sorte que não se possa eliminar de maneira definitiva esta impressão, muito provavelmente ela é um tanto apressada.
Estas "supostas" variações podem ser equivocadamente extraídas sobretudo de uma consulta rápida e superficial a algumas de suas obras; porém, uma análise mais detida pode revelar justamente o contrário, isto é, seu verdadeiro intento.
É o que se pode inferir daquelas obras onde o epistemólogo abordado o tema de maneira especifica, como, por exemplo, na obra A formação do espirito científico, de 1938. Porém, seu desapego a fixidez, a rigidez dos conceitos constitui justamente o aspecto intrinsecamente polêmico, que marca de uma obra que tem no conflito, na desconstrução e na ressignificação dos conceitos sua característica fundamental.

Ora, se como define o filósofo “uma ideia clara dentro de um domínio de investigações pode deixar de iluminar em outro domínio” (BACHELARD. El compromiso), a ressignificação dos conceitos deve caracterizar o trabalho essencial e primeiro do exercício filosófico.
Por esta razão, quando o sujeito ingênuo presume um conhecimento adquirido, imagina-o muitas vezes como um edifício rigidamente construído, cuja estrutura jamais poderá ser abalada. Pensa ter chegado a um principio da razão, semelhante àquele principio cartesiano do cogito. Dentro da lógica epistemológica de Bachelard, esta ideia é a um só tempo sedutora e perigosa.
Perigosa, sobretudo para o homem que se pretende contemporâneo da ciência.
Aqui esta a contribuição e a razão da índole polêmica da filosofia cientifica de Gaston Bachelard. Para o filósofo cada novo conhecimento na ciência altera toda a estrutura da ciência o que exige por sua vez uma ressignificação dos conceitos, principalmente, no campo da filosofia da ciência, suponde que esta disciplina pretenda manter-se em dialogo constante com o conhecimento científico de seu tempo.

É interessante observar que esta proposição feita primeiramente por um filósofo da ciência no início do século XX, tenha consonância com os avanços científicos atingidos por um ramo inteiramente novo do conhecimento e da ciência  que é a neurociência.
Segundo descobertas recentes da neurociência cada novo conhecimento adquirido pelo sujeito, afeta de forma estrutural sua mente, ou seja, sua composição neuronal. Basicamente, é como se a entrada de um novo elemento (conhecimento, informação ou dado) levasse a uma completa reorganização da estrutura cognitiva como um todo - esta característica recebe o nome de ‘plasticidade neural e cognitiva’.
Há nessa descoberta a desconstrução definitiva da imagem do conhecimento como edifício. A partir daqui o conhecimento ganha, como postulava Bachelard, uma forma móvel, uma estrutura complexa e dinâmica, sujeita a constantes ressignificações. Conforme o filósofo: “O conhecimento científico se constrói em reconstrução, isto é, na medida em que destrói aquele conhecimento já edificado.” (BACHELARD, Le nouvel esprit scientifique)

Neste sentido, o conservadorismo é identificado não somente como uma categoria perniciosa em suas vinculações culturais, mas principalmente em suas vinculações epistemológicas. Numa de suas denúncias o filósofo afirma que conservadorismo e avareza são categorias solidarias que constituem verdadeiros obstáculos epistemológicos, como se pode verificar no trecho a seguir:
“Mesmo na mente lúcida, há zonas obscuras, cavernas onde ainda vivem sombras. Mesmo no novo homem, permanecem vestígios do homem velho. Em nós, o século XVIII prossegue sua vida latente; infelizmente, pode até voltar. Não vemos nisso, como Meyerson, uma prova da permanência e da fixidez da razão humana, mas antes uma prova da sonolência do saber, prova da avareza do homem erudito que vive ruminando o conhecimento adquirido, a mesma cultura, e que se torna, como todo avarento, vitima do ouro acariciado.” (BACHELARD, A formação.)
Deste modo, podemos concluir por hora que a aparente falta de unidade, a aparente indefinição dos conceitos em Bachelard tem um proposito absolutamente claro, indicar um caminho para uma epistemologia parceira da ciência de seu tempo. E portanto, sua complexa definição do conceito de obstáculo epistemológico pretende atender uma exigência metodológica sua – harmonizando a definição ao contexto de construção ou descoberta do conhecimento científico.

1934. nouvel esprit scientifique. Paris: PUF. (Tradução brasileira de Joaquim José Moura ...(et al.). – 2ª ed. – São Paulo : Abril Cultural, 1984. Col. Os Pensadores)
1938. La formation de lésprit scientifique: contribution  à une prychanalyse de la connaissanceobjective. Paris: Vrin. (Tradução brasileira de Estela dos Santos Abreu. – Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.) 

1972. L’engagement rationaliste. Coletânea póstuma de textos, prefácio de G. Canguilhem, PUF. (Tradução espanhola de Hugo Beccacece. – Mexico: Siglo Veintiuno, 1985.)