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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

O homem que não queria pular



“...todos os homens sadios já pensaram no próprio suicídio...”
Albert Camus


Olhar o mundo do alto pode ser sadio, desde que não se confundam vertigem e desejo. Era fim de tarde, abri uma cerveja e, ainda relaxando, aproximei-me da sacada. O sol já rondava as bordas do mundo, iluminando as poucas nuvens que se esticavam no horizonte. Foi quando avistei a certa distância uma figura que se aproximava do parapeito no terraço do prédio mais adiante. Em principio, achei que fosse um desses loucos que andam por aí hoje em dia desafiando a vida, saltando de um lado para o outro, praticando um desses esportes modernos criado pelos franceses, o “le parkur”. 

Analisando melhor sua silhueta, porém, pude concluir rapidamente que não se tratava de uma pessoa na sua melhor forma.

O sujeito subiu na mureta do parapeito e olhou para baixo, como que mirando num ponto ou calculando um ângulo. Em seguida, antes que eu pudesse piscar, ele saltou. Tudo foi tão eterna e alucinantemente rápido, segundos...

Enquanto caia, seu corpo fez meio giro no ar, pude observar. [Hoje me pergunto: ora, se ele não encarou a certeza dura da terra, como desejava – será que o insondável azul do céu obliterou por alguns segundos as firmes convicções que o conduziram até àquele desfecho? O que terá sido das narrativas que possuía de si – passado, presente, futuro? _Agora pouco importam! Embora, nesta altura, eu tenha a firme convicção de que algumas coisas durante aquela queda tenham sido plenamente vividas: o instante, o azul e a queda.]

Tudo fica mais vivido quando o foco é o instante!

O som de seu corpo se chocando contra o chão ecoou na galeria dos prédios vizinhos com um forte estampido.

Logo, aglomeraram-se em torno de seu corpo inerte, curiosos. Para alguns daqueles que se aproximavam, conferir o resultado do desatino era morbidamente necessário.
Não demorou muito, e as vibrações no celular denunciavam, já circulam pelas redes sociais algumas fotos e vídeos da tragédia. Numa delas seu corpo jazia inerte no passeio pavimentado. Uma morte instantânea, certamente, conforme se podia apurar.

Porém, seus olhos, que permaneceram perturbadoramente abertos pareciam revelar algo de ainda mais assustador. Neles, algo como uma expressão de arrependimento provocava a tétrica impressão de que, talvez, em meio a sua trajetória rumo ao infinito, tivesse descoberto algo pelo qual valesse a pena ter vivido; mas que, no entanto, nunca lhe houvera ocorrido. Algo como uma iluminação súbita [quem sabe a (des)afortunada revelação de que apenas a vida enquanto experiência estética bastava, somente ela e nada mais, nenhuma razão, nenhum discurso ou narrativa eram suficientes ou mesmo necessários] e, junto desta epifania a infeliz e estarrecedora conclusão: Agora é tarde demais...

E, assim, seus olhos silenciaram fitando para sempre o infinito azul do céu.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

O último dia

O que você faria se soubesse que tem somente mais um dia de vida?


Pedro acordava todos os dias às cinco da manhã, detestava faltar ao trabalho. Os motivos e justificativas para sua resiliente assiduidade, porém não eram tão nobres. Era um sujeito convencional, tíbio mesmo e temia apenas ser demitido. Bem, há quem pense que seja perfeitamente normal que um sujeito se preocupe em perder seu emprego e isto justifique suficientemente sua prudente, porém pusilânime dedicação. Mas, convenhamos, viver uma vida de trabalho sob a ameaça da demissão não é fácil para ninguém, aliás, não é nada saudável. E o ambiente competitivo de sua empresa criava esse tipo de tensão e expectativa. 'A meta ou a rua', esse era o mantra do terror. _ A bem da verdade, suas tripas ora se contraiam, ora destendiam e se agitavam. Algumas vezes sofria com a constirpação, outras com a danação. E assim era, todas as noites de domimgos quando lembrava das metas, do trabalho. E, mesmo não gostando nem um pouco do seu emprego, lhe causava ainda mais mal pensar na ideia de mudar, tinha verdadeira ojeriza por mudanças. Também considerava vagabundos "aqueles sujeitos desempregados". Pensava assim, mesmo daquelas pessoas nas filas de emprego por aí. "Mais uma arruaça!" Detestava arruaça. Paranoicamente, imaginava sempre haver alguém conspirando para puxar-lhe o tapete no trabalho e tomar-lhe a promoção; mesmo sabendo que nos últimos dez anos não houvera promoção alguma em sua empresa. (- É uma questão de contenção de despesa! Afirmava a chefia; – nossos colaboradores precisam compreender - complementavam)[1]. Mesmo assim, cogitava ele, "quando forem liberadas as promoções, quero estar qualificado".
Na última terça-feira, há uma semana aproximadamente, porém, Pedro faltou ao trabalho, - coisa absolutamente rara! O pessoal do RH informou que - foi por “problemas de saúde”. Teve que ir ao consultório médico pegar o resultado de uns exames que havia feito – ultimamente vinha sofrendo de fortes dores de cabeça e nos últimos dez anos, como dito, recusava-se a faltar, nem mesmo tirava suas folgas-prêmio. No entanto, um desmaio na última semana o levou a uma quebra na sua rotina "a coisa apertou, tive que procurar um médico".
Ficamos sabendo depois que ele tinha recebido um diagnóstico de câncer na cabeça que dizia o seguinte: câncer na base anterior de seu lobo frontal. Para o médico, o câncer estava tão próximo de seu hipotálamo que na verdade ele não conseguia explicar como Pedro ainda estava vivo, andando e se comunicando.
Talvez as doses cavalares de analgésicos que ele vinha tomando nos últimos dias pudesse explicar alguma coisa, mas sua sobrevida para o experiente neurologista era um verdadeiro fenômeno. Ao que se sabe o médico foi duro, direto, sem rodeios no diagnóstico e explicou como quem lesse um obituário: - Bem, senhor Pedro, as noticias não são boas. O tumor em sua cabeça encontra-se já em estado tão avançado que há em seu crânio uma verdadeira bomba relógio. Suspeita-se que seja um tumor maligno, visto que seu crescimento, sua multiplicação celular parecia estar acontecendo numa taxa tão exponencialmente alta. Neste ritmo sua sobrevida poderia até ser calculada em horas, restando inevitavelmente pouco tempo para que o câncer atinja seu hipotálamo e detone seu sistema nervoso central colapsando inclusive o sistema nervoso autônomo, o que implicará numa consequente falência dos seus órgãos. Por esta razão devo alertá-lo que é quase certo que o senhor dispõe de no máximo mais algumas horas de vida.
Pedro ouviu tudo aquilo com um olhar distante e vazio, parecia meio desligado. Na verdade estava concentrado, apenas lembrara que havia esquecido seu grampeador em cima da mesa, certamente um de seus colegas estaria usando seu grampeador - cogitava.
Para o médico não era possível decifrar na expressão facial de Pedro se ele atinava para a seriedade da situação, para a gravidade de seu diagnóstico ou se estava em estado de choque. O estranhamento do médico só aumentou quando viu seu paciente se levantar da cadeira e sair da sala cumprimentando-o, desejando-lhe um bom dia e um 'até breve'. Diante disso, Dr. Renato, experiente neurologista, não teve dúvidas, de fato seu paciente estava em estado de choque. Pensou em perguntar se Pedro estava acompanhado, mas hesitou...
Pedro não tinha parentes na cidade e há pelo menos dez anos não entrava em contato com sua família. O motivo não se sabe, mas tudo indica que tenha simplesmente se afastado e deixado de se comunicar. Logo o tempo e a distância tornaram-se eles mesmos um constrangedor empecilho. A partir daí por bloqueio ou vergonha passou a evitar o contato. Razão pela qual os laços fraternos foram se esgarçando como um velho tecido. Tanto que sequer sabia dizer se seus pais estavam vivos ou mortos. Ao que parece essas coisas de família não lhe interessavam mais, entediavam-no mesmo.
No dia seguinte, o som estridente de seu despertador soou às cinco da manhã, era então quarta-feira. Não costumava tomar banho antes de sair para trabalhar. Usava lenços umedecidos. Apesar de ter um moderno e agradável chuveiro em seu banheiro, seguiu a mesma rotina de sempre. Levantou-se. Sempre pelo lado direito da cama. Enfiou os pés nas sandálias. Desligou o alarme. Deu a volta na cama e apanhou seu relógio de pulso que deixava na estante, sempre do lado oposto. Não se espreguiçou, apenas rumou para o banheiro. Parou diante do espelho e se olhou por uns segundos, como se houvesse notado alguma coisa estranha, mas, nada. Começou sua sessão de lenços umedecidos nas axilas, no pescoço, nas genitálias. Em seguida jogou um pouco de água no rosto. Fez um gargarejo. Cuspiu na pia. Olhou de um lado para o outro o rosto, "a barba ainda esta boa". Vestiu-se andando. Não costumava presta atenção em detalhes, a camisa tinha dois vincos na manga, a calça também.
Aproxima-se do horário em que apanha o 907, no ponto em frente ao seu edifício. "Se perder o 907, vou ter que pegar pelo menos duas conduções até o trabalho; não quero correr o risco de me atrasar". Tomou um gole de café amanhecido e frio e saiu. 
Apesar de pegar o mesmo motorista e o mesmo cobrador há quase dez anos, não costuma falar com ninguém e, quando falava, balbucia somente monossílabos, vez ou outra dissílabos, se necessário. Com os outros passageiros, nem pensar, preferia preencher as palavras cruzadas que baixara num aplicativo do celular. No ponto próximo a Paulista desceu de cabeça baixa e andou mais duas quadras, atravessando por uma praça com belos jardins. Nem conseguira perceber que apesar do clima as azaleias floresciam. Entra no edifício Montreal, o elevador é lento, cheio e o ar condicionado está quebrado, _ tanto faz! São pelo menos cinco paradas até chegar ao seu piso, mesmo assim, insere seu cartão exatamente no horário.
Sua mesa fica distante de qualquer janela, em todo caso a mais próxima dá para a parede do prédio vizinho, é cinza o dia todo! Em sua baia descobre que de fato alguém usou seu grampeador, "provavelmente Eduardo, o gordo, está sem grampos"! Olha meio emburrado para os lados e da início a sua rotina. Basicamente, carimbos, registros eletrônicos e escaneamento de documentos pertinentes a contratos de seguros. A julgar pelo volume de documentos em sua mesa o dia ia ser longo. Dia comum, maçante. Apesar da insatisfação e da rotina, vendeu todas suas férias nos últimos anos. Quem sabe venderia a deste ano também!?
Aproxima-se a hora do almoço, seu colega de baia convida-o para almoçar: - hoje tem feijoada no restaurante do primeiro andar! - Não, obrigado, pedi uma marmita. A marmita barata já está quase fria, o alface dentro da comida já está murcho, e o tomate por cima da comida dá ao arroz um desagradável sabor azedo. Come tudo na sala do refeitório da empresa. Tem pressa, "há muito o que fazer"!
O retorno rápido ao trabalho lhe causa alguma náusea, mas nada que alguns analgésicos não resolvam. Desde há algum tempo passou a tomar analgésicos por qualquer motivo. Durante o resto da tarde, chega a ouvir o ruído da chuva que nos últimos dias tem caído no meio da tarde. O clima varia tanto nesta época do ano em São Paulo que se tem a impressão de ter vivido pelo menos três estações em único dia. Calor ao meio dia, chuva no meio da tarde e frio ao entardecer. O tempo escoa lento, porém implacável. Mas, a monotona rotina o detém entre carimbos, transcrições e digitações.
No fim do expediente algo de inusitado acontece, os colegas o convidam para um happy hour, - Pedro, hoje vamos tomar uma cerveja e ver jogo no bar lá da praça! Quer vir conosco? Diante do embaraçoso convite recusa. - Não. Tenho umas coisas para resolver lá em casa. - Ok!
No fim da tarde, um minuto de distração sabe-se lá com o que o atrasa, mas, enfim, consegue pegar seu ônibus, que, no entanto, quebra a cerca de três quadras de sua casa. Sem alternativa, decide seguir o resto do percurso a pé. O dia ainda estava claro e a chuva do meio da tarde havia deixado o céu azul e límpido como nunca para este horário. O frescor do ocaso favorecia e as pessoas se juntavam nos bares e nas mesas dá calçada para o happy hour. Não prestou muito atenção, como sempre baixou a cabeça a apertou o passo rumo ao seu destino.
Na porta do apartamento sentiu algo estranho. Cismou por uns segundos antes de enfiar a chave na fechadura, ponderou..., parecia considerar algo, mas mesmo assim, num movimento quase que mecânico, quase que automático, virou a chave. Tonteou e caiu ali mesmo. Só sobre a soleira...
Encontraram-no assim mesmo no dia seguinte, metade do corpo para dentro do apartamento e as pernas para fora, meio que encolhido numa posição fetal. Comentavam no dia seguinte durante seu velório.
Após o enterro os colegas de trabalho resolveram tomar 'uma' num boteco ali mesmo, próximo ao cemitério. Foi Eduardo, o gordo, herdeiro oficial das miudezas de escritório de Pedro, quem puxou o assunto...
- O que vocês fariam se soubessem que tinham somente mais um dia de vida?




[1] Muito embora, os últimos três balancetes trimestrais da empresa tivessem apresentado apenas índices positivos.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Discurso de formatura da turma de 2014 - SESI 087

Boa tarde (noite) a todos!
Senhores pais, mães, alunos, colegas de trabalho, inspetores, equipe da limpeza, da alimentação, equipe gestora, senhor administrador.
Pediram-me...
Aliás, corrigindo, foi-me recomendado que fosse econômico no discurso. – Embora eu seja um outsider vou procurar manter o protocolo e seguir a recomendação, afinal, dizem que é bom ser prudente em tempos de crise. (rs)
Bem, neste sentido, gostaria primeiramente de dizer da minha satisfação. Gostaria de dizer que me sinto extremamente honrado pelo convite para ser paraninfo dessa turma. No fundo sou uma pessoa muito simples e, como todo professor, qualquer pequeno gesto de reconhecimento é suficiente para me emocionar e me fazer sentir orgulho pelo meu trabalho.
Professores são pessoas simples!
Agradeço aos alunos do 3º A, por terem me concedido essa honra. Obrigado!
Gostaria de começar meu breve discurso lembrando duas provocações nietzcheneanas sobre o que o verdadeiro filósofo espera de seus discípulos:
1º
“O homem do conhecimento não precisa somente amar seus inimigos, precisa também odiar seus amigos.”
Ou seja, é preciso seguir de perto o que dizem aqueles com quem não concordamos, mas sobre tudo, é preciso exercitar a discordância com nossos amigos para que não sejamos doutrinados pela força da amizade, nem cúmplices do erro. Isto porque, com relativa facilidade denunciamos os erros em nossos inimigos; porém, é preciso ter muito caráter para denunciar os erros em nossos amigos – caráter, eis uma palavra cara em nossos dias!
2º
“Paga-se mal a um mestre, quando se continua sempre aluno.”
Por isso recomendo, tomem as rédeas de suas vidas e formação, não esperem a partir de agora que seus país ou professores lhes digam o que vocês “devem” fazer.
Isto dito...
Outro dia numa aula sobre noções de economia política na sala do 3ºB, fui concitado pelos meus alunos a fazer uma aula especifica de introdução à economia – lamentavelmente, em função da correria do fim do ano, não tivemos esta aula.
Hoje então farei a leitura desse pequeno livro sobre o capital no século XXI... Estou brincando....(embora tenha trazido comigo este exemplar no meu novo livro de cabeceira O Capital no século XXI, do Piketty – recomendo a leitura!!).

Bom, na verdade gostaria de perguntar o que afinal a sociedade espera de vocês formandos?
Sucesso!?...
O que se entende com a palavra sucesso?...
Eu não gosto da palavra sucesso, sobretudo, porque o antônimo, o contrário da palavra sucesso é fracasso; mas parece que esta palavra está na moda hoje em dia...
Os “gurus” da auto ajuda gostam da palavra sucesso.
Os “gurus” do business gostam da palavra sucesso.
Mas a maneira como esta palavra é interpretada pelo senso comum nos leva a crer que muitas das pessoas que admiramos, respeitamos e veneramos durante muito tempo, não são ou foram pessoas de sucesso.
(Os professores, por exemplo, não são considerados modelos de sucesso em nossa sociedade, não são exemplos a serem seguidos).
Mas...
Vejamos o caso de Sócrates.
Um sujeito que fez da sua vida uma incansável busca pelo conhecimento, pela verdade e pela justiça, dava aulas nas ruas e praças públicas a quem quer que desejasse aprender, não ganhava nenhum centavo por isso. Mesmo assim arrumou muitos inimigos, foi perseguido, preso e condenado a morte por seus compatriotas.
Fracasso???
Vejamos o caso de Jesus.
Um sujeito que até onde se sabe não possuía bens, tinha uma profissão humilde, era carpinteiro, segundo dizem; dividia o pouco que tinha com os outros; e dizia que amor era a coisa mais importante do mundo; foi perseguido por seus compatriotas e entregue aos romanos para ser morto.
Fracasso???
Vejamos o caso de Gandhi.
Um sujeito que andava com as roupas de algodão que ele mesmo fiava, quase não possuía bens, e se os possuía não os ostentava, pregava e praticava a não violência, mesmo assim foi assassinado por um compatriota seu.
Fracasso???
Se as pessoas aqui presentes não conhecessem a historia destes grandes homens certamente tenderiam a acreditar, conforme a moda, que estas são historias de fracasso.
Que dizer então da família?
De uma mãe, de um pai que possui uma profissão humilde, como a de operário da indústria, ganha pouco e o pouco que ganha investe não em si, não em bens e ostentação, mas na formação dos filhos; e, somente com muito esforço e sacrifício consegue levar essa empreitada adiante.
Fracasso???
Eu tendo a crer que se um desses gurus dos negócios observasse isoladamente a vida de alguns desses pais, dessas mães certamente diriam que eles também não obtiveram sucesso em suas vidas pessoais.
Vejamos agora alguns dos casos de sucesso festejados e enaltecidos pelos ditos gurus dos negócios:
Em meados do século XIX, Irineu Evagenlista de Sousa, também conhecido como o Barão de Mauá, levantou uma relativa fortuna “contrabandeando” escravos negros da África para a América Latina. Muitos destas pessoas eram sequestradas e vendidas como escravos no “mercado” ilegal, uma vez que o trafico negreiro já havia sido proibido pela coroa com a Lei Eusébio de Queirós, de 1850.
Alguns estudantes de administração chamaram este episódio do mundo dos negócios de um “case de sucesso.”
Em 1997, o economista Armínio fraga, comandou uma ataque especulativo contra a economia da Tailândia que rendeu a ele e ao seu sócio George Soros lucros da ordem de mais de 2 bilhões. Este golpe na frágil economia da Tailândia quase levou o país a falência quebrando centenas de empresas e ao desemprego milhares de pessoas.
Alguns estudantes de economia chamam este episodio de um “case de sucesso.” 
Eis porque não gosto da palavra da moda “sucesso”.
Daí que prefiro a palavra realização.
Um homem que realiza coisas tem do que se orgulhar.
Neste sentido, lutar incansavelmente pela verdade e pela justiça ainda que com isso não se obtenha dinheiro e bens,
é sim realizar coisas!
Lutar pela justiça e pelo amor, ainda que com isso você seja traído e injustiçado,
é sim realizar coisas!
Lutar pela liberdade e pela paz, ainda que com isso você seja preso e maltratado,
é sim realizar coisas!
Do mesmo modo, dar uma formação digna aos seus filhos, ainda que para isso se tenha que sacrificar nosso tempo, e tantas outras coisas, é sim realizar coisas!
É desta maneira meus alunos, que respondo o que se espera de vocês que hoje encerram uma etapa importante de suas formações.
Espero que tenha uma vida plena de realizações, uma vida que traga orgulho não só para vocês mesmos; mas que traga orgulho a todos que os cercam, principalmente às suas famílias, uma vez que não podemos esperar muito reconhecimento dos outros, como pudemos observar.
Lembrando que nenhum daqueles homens honrados aos quais me referi tinham a pretensão de serem lembrados por toda a eternidade, apenas buscaram ter uma vida digna e honrada e assim realizaram suas vidas da melhor maneira possível.
Portanto, finalizo recomendado e desejando a vocês que Realizem uma boa vida!

Meus parabéns a todos.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Vale tudo para salvar o ano

Fim de semestre é sempre igual, os alunos que passaram o ano todo sem fazer nada; ou mesmo aqueles que sequer frequentaram a escola aparecem para tentar dar um “golpe final” e salvar o ano.
Para se dar bem nessa, digamos, ‘manobra’ lançam mão dos mais extraordinários artifícios.
Eis que estou eu sentado em minha cadeira corrigindo algumas atividades e, de repente, me aparece uma aluna, literalmente do nada, visto que já não vinha à escola há mais de três meses, e pergunta:
_ Professor será que eu ainda tenho chances de passar de ano, eu fiquei quatro meses sem vir pra escola?
Eu: Veja bem minha querida, o problema é que de um total de 40 aulas você só compareceu duas, que são justamente as de hoje.
Ela então franziu a testa e num tom profundamente dramático anunciou:
_ Foi um caso de câncer professor!!!
Eu imediatamente tomado pela empatia expresso minha preocupação: Nossa minha querida, que terrível! Mas quem teve ou esta com câncer, sua mãe, sua avó ou outro alguém da família?
Ela então responde num tom ainda mais dramático, quase que teatral:
_ Não professor! Não foi nenhum parente, fui eu mesma!
Eu então dou aquela olhada clinica “mais cuidadosa” para moça a fim de encontrar resquícios de uma doença tão terrível, - sem êxito na verificação superficial exclamo:
_ Que coisa lamentável moça! Mas quando foi? Você ainda esta em tratamento? Esta fazendo quimioterapia?
Ela: Quimio.. o que professor?
Eu: quimioterapia ou radioterapia?
Ela: Não, era outro tipo de tratamento!
Eu curioso e desorientado então pergunto: afinal, que tipo de câncer você teve minha querida?
Ela: eu tive um "BIOMA NO ÚTERO...".
Eu: você teve o que?
Ela: UM "BIOMA NO ÚTERO..." (tom de dramaticidade enfatizado)

_ Imagens que solaparam imediatamente os meus pensamentos: Caatinga, Serrado, Mata Atlântica, Tundra...

Pensei comigo mesmo... depois de ter visto Claudia Ohana nua na Play Boy nos anos 80, nunca imaginei que fosse encontrar novamente uma mulher com um BIOMA NA VAGINA.


sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Sobre encontros, tequilas e amnésias


Diz a lenda que em algumas pessoas o porre de Tequila causa amnésia.
Certo dia, um casal de amantes marcou um encontro regado a muita, mas muita, Tequila.
Bem, dizem que a arte imita a vida, neste caso, extraordinariamente, sucedeu como na lenda. No dia seguinte, ambos acordaram em suas respectivas casa, porém sem a menor lembrança do que havia lhes ocorrido na noite anterior.
Em função do esquecimento, repetiram seus encontros por um sem-número de vezes...
Os detalhes!
Ah... os detalhes desses encontros...
No íntimo de cada um dos amantes, restava uma vaga lembrança: a sensação intuitiva dos detalhes, dos muitos detalhes...
Mas as circunstâncias da vida são tantas... e, entre encontros e desencontros, perderam-se pelo mundo.
Enfim, os amantes, pseudo casal, tomaram em suas vidas rumos diferentes...
Um foi para o norte o outro para o sul – coisas que acontecem na vida das pessoas.
Apesar de passado muito tempo, sentiam inusitadamente uma imensa vontade de se embriagar; sentiam uma falta, um vazio, sabe-se lá de que...
O fato é que os porres de tequila, agora sós, apenas lhes causavam substanciosas ressacas, tremendas dores de cabeça. No fundo, permanecia aquela mesma sensação de vazio, de ausência.
Depois de muito ponderarem a respeito de suas profundas angustias, sobre a terrível sensação de ausência que lhes oprimia, resolveram novamente se encontrar...
Então, aquele que havia ido para o norte, retornou. Assim como o amante que havia ido para o sul.
O reencontro ocorreu no mesmo horário e no mesmo local em que durante anos se encontravam.
Finalmente voltaram a se encontrar!
Ambos confidenciaram sobre suas profundas angustias; as lancinantes sensações de ausência que sentiram.
Discutiram sobre a hipótese da amnésia provocada pelos porres de tequila e admitiram sua possível factibilidade.
Puseram-se então a recapitular em suas memórias cada passo de seus encontros passados. Cada gesto foi, meticulosamente, retomado pelas parcas memórias de cada um.
De repente, como um grande quebra cabeças, tudo foi se desvelando diante de suas consciências.
O que em princípio parecia uma enorme colcha de retalhos foi se revelando um belo tecido, rico de detalhes. Cada redescoberta era motivo de grande alegria para ambos.
Em dado momento, todo o ritual dos encontros passados havia sido refeito.
Momento que lhes ocorreu a grande iluminação...
Como de súbito, toda aquela sensação de angustia, de vazio, havia sido finalmente preenchida pelos vários fragmentos de uma memória compartilhada e que lhes reconstruiria todo o sentido, que lhes refaria todas os brancos das longas noites de embriagues alone.
Faltava em suas tequilas...
O sal e o limão.


By: Jairo de Sousa Melo

sábado, 27 de abril de 2013

A FARSA DA DEFESA DA REDUÇÃO DA MAIOR IDADE PENAL PELO PSDB EM SP


OU SIMPLESMENTE “NÃO EXISTE AMOR EM SP, NEM EDUCAÇÃO”




A população carcerária em São Paulo em 1996 era constituída por aproximadamente 50 mil presos. Em 2007, essa população já havia chego a 153.274, um aumento de 146%. Nesse ano de 2013 a julgar pela média da progressão essa população pode estar ultrapassando os 250 mil. Desta população cerca de 60% é composta por pessoas jovens, entre 18 e 29 anos. Os mesmo 60% desta população possui somente o ensino fundamental.
Um cálculo simples nos dá conta que metade desta população estava em idade pré-escolar ou nos seus primeiros anos de estudo quando o PSDB assumiu o governo do estado de São Paulo em 1996. Em qualquer país sério (exceto EUA) essa seria a denúncia do fracasso educacional, do fracasso cultural, do fracasso de um partido que não tem, nem nunca teve um projeto de educação, um projeto de proteção da juventude, um projeto de nação.
Agora o governador Geraldo Alkmin aparece na TV, levantando a bandeira de uma punição mais severa para menores. Bandeira que não evidencia uma solução; mas, sobretudo o FRACASSO, o grande disparate no processo educativo, o fracasso na melhoria das condições de vida da juventude. Que deveria ter tido acesso à cultura, a uma educação de qualidade.
Todavia a grande mídia, a PIG, aceita e dissemina a vergonha do estado mais rico da federação como se essa fosse a grande solução, a solução definitiva para todos os nossos problemas.
Aumenta-se paulatinamente a população carcerária, porém, prossegue a cruzada da nossa sociedade rumo à barbárie. Os crimes violentos não cessam de surpreender, de chocar toda a população. Não tarda e nosso governador levantará a bandeira da pena de morte, se isso lhe parecer conveniente politicamente. Como se exterminar aqueles que não foram educados, aqueles que não foram “civilizados” fosse o mais brilhante dos recursos.
Noutro texto, outro dia, eu afirmava que vivíamos uma espécie de decadência espiritual (não no sentido religioso do termo). Essa decadência em parte é ratificada pela própria população que insiste em eleger políticos corruptos e um partido que obviamente fracassa na proteção dos jovens, na proteção das famílias, dos trabalhadores enfim do cidadão. Um partido que só tem a oferecer uma falácia como solução para todos os problemas.
Não se enganem, existe uma, e somente uma solução para a barbárie e ela se chama EDUCAÇÃO.
Que não se confunda ESCOLA com EDUCAÇÃO. Educação diz respeito a um projeto amplo de sociedade, diz respeito a um projeto ambicioso de construção de um futuro melhor que implique na inclusão SOCIAL, CULTURAL E ECONÔMICA de todas as pessoas.
DUVIDO sinceramente que esse seja o projeto do PSDB, duvido porque não vislumbro num horizonte próximo um tratamento digno desse partido para com os PROFESSORES, por exemplo.
Dois grupos são fundamentais para a construção de uma sociedade mais justa, de um país, de um estado ou cidade mais digna. Esse dois grupos são compostos pela JUVENTUDE e pelos PROFESSORES; porém, uns o governo insiste em mandar para trás das grades, os outros, insiste em humilhar e desvalorizar.
É lamentável.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

A DECADÊNCIA DO POVO BRASILEIRO:

ou sobre igrejas, botecos e farmácias (parte I)



Três coisas principalmente se proliferam nas pequenas cidades e entorno das grandes cidades como sinal da doença e da decadência espiritual de um povo. São elas as “igrejas”, os “botecos” e as “farmácias”.
Para comprovar a decadência que aqui denuncio não é necessário postular uma tese, exercício de um intelectual, ou ainda, que seja posto em pratica uma investigação científica por algum catedrático; basta que um indivíduo qualquer, dotado minimamente de razão ou discernimento observe e analise com atenção o que acontece nas periferias e mesmo nas ruelas das grandes e pequenas cidades do nosso país.
Enquanto a Europa e todos os países desenvolvidos cada vez mais abandonam as crenças, superstições e religiões, nosso país, ao contrário, parece cada vez mais se aprofundar nas trevas das religiosidades, cultos e superstições que ainda hoje fazem ecoar os resquícios sombrios de um mundo medieval.
Parece que vivemos aqui um retrocesso.
Desde o século XVIII, se não antes para alguns países, a maior parte das nações ocidentais realizou um divórcio, que ‘parecia’ definitivo, entre Igreja e Estado. Todas essas conquistas estão agora sendo postas em risco na América Latina, e particularmente no Brasil.
Isto porque, entre outras coisas, as transformações sociais e econômicas apenas nos trouxeram a ilusão capitalista do sucesso pelo trabalho. O que é certo é que a divisão social e econômica em nosso país criou um abismo que, mesmo hoje com todas as mudanças, ainda é intransponível.
A evidência dessa condição gera desalento e falta de esperança no futuro. O desalento, a falta de esperança na melhoria das condições de vida torna-se o combustível para as crendices, superstições e religiosidades. Pois o que resta a um homem que não consegue ver saída para sua miserabilidade, para suas frustrações, problemas, e doenças, senão a conversão numa crença da salvação da alma. Ora se tudo aqui parece estar perdido, pensa o sujeito, porque não investir no que supostamente ainda me resta? A alma! Este sujeito acaba se tornando um alvo fácil para os “agiotas da salvação”. E assim avança e se ramifica nas periferias das grandes e pequenas cidades um sem numero de igrejas e casa de orações entre outros espaços para o culto da superstição e da devoção.
O homem perdido e sem esperança na vida cultua a esperança de uma outra vida, uma crença no além. Nega e renega seu direito de luta, de subversão da sociedade. Nega e renega sua existência positiva em favor de uma existência negativa, de uma existência no além. Desse modo, se aliena e se torna ainda mais um instrumento da escravidão econômica, visto que não fará frente, não se oporá a exploração promovida pelo sistema, haja vista todas as suas fichas estarem depositadas “num além vida”.
(...)

segunda-feira, 18 de março de 2013

Universidades federais finalmente expostas na Scientific American Brasil



http://adonaisantanna.blogspot.com.br/2013/01/universidades-federais-finalmente.html

Caro professor
Conheci seu trabalho há alguns anos quando pesquisava uma base para meu projeto de mestrado em filosofia da Ciência. Na ocasião, adquiri seu livro "O que é um axioma".
Sobre o artigo em questão, passei por uma experiência que me veio inteiramente a cabeça enquanto lia seu artigo.
Neste ano, me inscrevi para uma vaga como professor de Filosofia da Ciência (num curso de licenciatura em Filosofia) numa instituição particular de ensino superior, apresentei uma aula em que usava o experimento de Michelson e Morley como base para análise dos conceitos de experimento, ciência e  verdade científica, neste sentido havia um entrecruzamento, uma convergência de linhas filosóficas em que entrava em operação a noção semântica de verdade de Tarski.
Humildemente não sei se fiz uma boa apresentação.
Porém o que mais me chamou atenção foi o fato de que ao final de minha apresentação, umas das pessoas que me avaliavam ter perguntado: "e Platão? E Aristóteles? E a Filosofia?
Pareceu-me evidente, naquele momento, pelo teor da pergunta - que as pessoas não consideravam nenhuma relação entre o que eu havia apresentado  e a Filosofia da Ciência. Ainda mais, que tinham uma visão absolutamente ultrapassada do assunto (ela não questionava a falta de diálogo com a tradição filosófica). O que demonstra o abismo existente entre o que se ensina nas Instituições de Ensino Superior e o que se pesquisa em Filosofia da Ciência atual.
Neste sentido, pergunto ao senhor: se as instituições de ensino superior públicas estão defasadas em termos de atualidade do conhecimento em função da falta de qualidade individual dos professores, que dizer da instituições privadas?

domingo, 1 de julho de 2012

Espelho para cego?


Preste bem atenção no que vou te escrever...
Porque vou repetir essa expressão por duas vezes
"Sou teu amigo, não teu cúmplice."
Não tenho que concordar com tudo que você pensa, diz e faz.
Você tem muitas pessoas para te bajular, não sou teu bajulador
Se nossa amizade persistir será pela afirmação daquilo que temos em comum
Creio que nossa amizade persistirá porque ela é, e sempre foi baseada numa relação de sinceridade. 
Não poderia ser diferente, não da minha parte.
Por isso reafirmo: sou teu amigo, não teu cúmplice.
Houve muitos momentos em que questionei, em que discordei de suas atitudes, gestos, ações. Quando discordei fiz isto de maneira firme, porém humana e fraterna. Fazendo questão de deixar claro minha posição.
Nossas posições politicas são diametralmente opostas, e dai?...Porém...

Vivemos numa época em que as pessoas não aceitam um NÃO como resposta, não aceitam uma reprimenda, não aceitam terem suas atitudes questionadas.
Qualquer pessoa que discorde é um inimigo.
E o inimigo, o discordante deve ser aniquilado, deve ser eliminado, extinto, exterminado.

Assim, vemos as pessoas sendo mortas em brigas de torcida, em guerras religiosas etc.
Vemos também a hipocrisia  das pessoas quando se espantam diante da violência; mas principalmente quando a violência se torna um espetáculo midiático.
Querem aniquilar o 'outro'.
Se "o inferno são os outros", como dizia Sartre, são também o ponto de referência para nossa existência, o espelho por meio do qual o sujeito vê a si próprio.Desta forma, os outros são nosso espelho.
Vivemos numa época em que o sujeito se destaca por sua capacidade conviver com a hipocrisia, a falsidade, a mentira.
Talvez esta seja a razão "por verem um mundo doente", por verem a si próprios doentes pretendem destruir todo e qualquer espelho, O OUTRO.
Não posso pactuar com esse tipo de atitude. 
Luto numa outra frente.
Meu fronte é outro, pois no cabo de guerra que a civilização humana trava com a barbárie
Me aliei à educação. 
Na tenção que se estabelece entre um novo mundo e sua destruição, tomei o partido da cultura, da civilização, da educação, da construção do homem integral, ecológico...

Nossa amizade sobreviverá se, e somente se, sobre nossas incompatibilidades sobrepusermos nossas empatias.
Noutras palavras, se prevalecer as  qualidades sobre os defeitos, se prevalecer o afeto sobre o ranço.
Enfim, a amizade persiste, se persistir não o ódio, mas o AMOR.


terça-feira, 30 de agosto de 2011

"Viver é muito perigoso" (Parte I)

Comentário à frase do personagem Riobaldo.
(Riobaldo; in Grande Sertão: Veredas - Guimarães Rosa)



Viver é muito perigoso...
Se esta afirmação fosse atribuída à realidade do mundo animal não veríamos, de parte alguma, grandes objeções. Todos, mais ou menos, concordam: a vida no mundo animal é um perigo. É, em certo sentido, um estar exposto.
No mundo animal, os momentos de tranquilidade são alternados, ou melhor, integrados a uma atividade de vigília constante. Para cumprir esta finalidade e preservar ao máximo sua existência, os animais laçam mão de uma série de recursos e artifícios. A agressividade constitui, sobretudo, um dos instrumentos fundamentais para a preservação de sua integridade e sobrevivência.
Porém, o humano, com seus “pactos”, “contratos” e “convenções” ‘parece’ ter criado um mundo de tranquilidade. “O oceano da tranquilidade”. Será? Nesse aparente mundo ou mundo das aparências, supõe-se não existir mais a necessidade de o homem manter a vigília constante, sua agressividade. Nesse mundo, a preservação do indivíduo virou função do Estado. Os mecanismos de camuflagem, de atração e ataque foram supostamente abandonados, e substituídos pelos “instintos” de solidariedade, de fraternidade, ambos característicos da sociedade moderna. Será?
Contudo, essa tranqüilidade, suposta condição de uma humanidade superior e evoluída, constitui, quando muito uma máscara, persona a serviço da hipocrisia , da inautenticidade; promovida por um ideal de homem que nega sua corporeidade em troca de uma crença niilista, já denunciada por outros.
A própria realidade humana, a esfera humana, a antroposfera engendra em muitos momentos disputas tão acirradas quanto àquelas típicas do universo animal. Aliás, somente no mundo humano é que algumas disputas adquirem requintes de crueldade gratuita.
Mas manter a aparência este é o lema. Os homens, as instituições, religiões, entre outros. Tudo parece estar organizado para esta estranha finalidade: manter as aparências. O cinismo, num sentido precário; a hipocrisia, num sentido geral, sustentam essa “aparente tranqüilidade”.
Riobaldo, personagem do romance GRANDE SERTÃO: VEREDAS de Guimarães Rosa, repete continuamente a frase: “viver é muito perigoso”. Ora ele essa frase é expressa como uma questão, ora como uma exclamação. Viver autenticamente é muito difícil; de fato, muito perigoso.
Não obstante, a mentira possa ser um bom tempero para a tranqüilidade.
Homens como Riobaldo, apartados da sociedade em virtude de sua condição marginal, parecem viver, no entanto, para além dos limites daquela tranqüilidade, a beira do precipício, numa condição de exposição verdadeira, derradeira condição humana. Onde viver é, de fato, muito perigoso. No limite das condições humanas o homem aparece sempre mais autêntico. Porém, essa autenticidade cobra um preço, visto que, nessa condição de absoluta precariedade e fragilidade, a vida demonstre estar sempre por um fio. Esse é o preço cobrado: a consciência plena de si, de sua frágil condição de vivente, do seu “estar ai”. Assim, o homem simples expressando-se também de maneira muito simples perscruta o profundo da condição humana, “a morte sempre iminente”.
Nos limites de suas condições, o homem sempre encontra consigo mesmo, e em si mesmo a oportunidade para uma reflexão profunda sobre sua realidade. É na dura vida de jagunço, percorrendo os sertões mais inóspitos, mais secos que ele encontra a oportunidade para maravilhar-se, para espantar-se diante de si e descobrir o homem...

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Fecha-se um ciclo....

Ola meus caros
Hoje, lamentavelmente, fechou-se um ciclo em minha vida.
Foi um período em que vivenciei muitas experiencias, algumas más e, felizmente, muitas outras muito boas...
Gostaria de agradecer aqueles que me acompanharam nesse trecho de vida...
Foram muitas as lições; mas realmente só em momentos como esses, de final de ciclo, que de fato, somos capazes de avaliar...
Bem, ainda não há o distanciamento necessário para uma profunda, uma radical avaliação; mas creio que a emoção do momento também pode ser um ótimo combustível para a reflexão.
Diante disto, eis a primeira lição: Ouça mais, fale menos.... rsrs 
Parece clichê; mas o pior é que funciona...

sábado, 28 de maio de 2011

As duas margens do rio


Hoje dia 28 de maio de 2011, acompanhei meus alunos da Faculdade numa feira estudantil; já estive numa destas feiras em outras ocasiões; porém com turmas do ensino médio. Ao que parece a feira era especificamente direcionada aos estudantes secundaristas em final de ciclo, tinha como finalidade servir de guia, de orientação para os alunos na escolha de suas futuras carreiras, bem como das instituições de ensino superior.
Nos últimos anos, ao que parece, a feira deu uma leve guinada a fim de ampliar seu público e introduziu em suas exposições empresas e atividades direcionadas para estudantes que não pretendem necessariamente trilhar o caminho dos cursos universitários; mas, sobre tudo, trilhar desde o final de sua formação no segundo grau uma carreira profissional, particularmente, as carreiras no serviço público.
As palestras deste modo centram-se, principalmente na orientação da escolha de cursos e profissões.
Ou seja, o objetivo da feira consiste em colocar os jovens em contato com instituições, na sua grande maioria particulares, que oferecem este tipo de serviço (cursinhos preparatórios para concursos, e as já tradicionais faculdades e universidades).
Bem, o fato é, a feira não se destina a estudantes universitários, como faz parecer a propaganda em seu site oficial: Publico alvo: O evento é direcionado ao público jovem: estudantes do ensino médio, técnico e superior.[1] (a não ser na parte que diz respeito aos cursos preparatórios para concursos públicos) Ela apresenta na maior parte de seus stands propagandas de instituições privadas tentando atrair novos alunos, ou quem sabe “roubar alguns alunos das concorrentes”; enfim, é uma feira de propaganda (onde algumas instituições podem apresentar para seu público alvo seus “produtos”).
Até aqui sem problemas.
Nosso problema seria o seguinte: que havia “de fato” na feira, que fosse, particularmente, destinado a estudantes universitários? Sem desmerecer nenhuma das palestrar, nem nenhum dos palestrantes, a resposta é simples: NADA.
Evidentemente, assistir uma palestra é sempre enriquecedor; porém, creio que muito mais interessante e enriquecedor para estudantes universitários seja acompanhar palestras que tragam à luz resultados de pesquisas; de trabalhos desenvolvidos em outras instituições; o compartilhamento experiências vivenciadas em escolas (particularmente em nosso caso, curso de pedagogia). Em fim, palestras que tragam a baila tudo que esta sendo produzindo de “novo”, no campo do conhecimento humano, do conhecimento científico.
Ora, mas e quanto à iniciativa dos alunos de se organizarem por si só? E quanto ao desejo claramente desperto de conhecer, de buscar?
Quanto a esta atitude tenho que parabenizar. Parabenizar a aluna Marina pela organização, pela iniciativa, pela demonstração clara, evidente, pelo desejo de proporcionar a si própria e a seus colegas uma oportunidade que, no meu humilde modo de entender a vida universitária, deveria ser favorecido, incentivado e estimulado pela própria faculdade.
Parabenizar todos os alunos que se dispuseram a sair em um sábado e dedicar todo seu dia a aventura da busca por novos conhecimentos, na busca pela ampliação de seus horizontes.
Por outro lado também tenho o que lamentar.
Lamentar e ao mesmo tempo fazer um MEA CULPA. Pela falta de orientação, pela falta de envolvimento nas atividades, nos projetos e nos planos dos alunos. Sim, penso que uma instituição de ensino superior tem o dever de dar respaldo a iniciativas como estas. Aliás, a instituição não pode desamparar os alunos em momento algum, principalmente em momentos como estes em que os alunos demonstram iniciativa, desejo de conhecer. Uma atitude explicitamente proativa.
Contudo, tenho certeza que cada um saberá tirar seu proveito desta experiência.

Na outra margem do rio, gostaria de relatar uma rica experiência que eu e outros poucos alunos tivemos ao visitar o PAVILHÃO DA CULTURA BRASILEIRA (também fizemos uma rápida visita ao MUSEU AFRO BRASILEIRO).
Lá tivemos a oportunidade de fazer uma visita monitorada a algumas amostras. Estavam sendo expostas obras de dois artistas, sendo eles: Ronaldo Fraga, com a exposição: Rio são Francisco: navegado por; e Mônica Nador, com a exposição: COM-PARTI-LHADA , além, é claro, do material do acervo permanente do Pavilhão.
Foi uma experiência enriquecedora, com certeza; os alunos que tiveram a oportunidade de acompanhar o monitor puderam ouvir historias e lendas sobre o Velho Chico e seus habitantes, aliás, seus habitantes (os peixes) e os habitantes de sua margem, as várias comunidades, cidades e vilarejos cortadas, banhadas ou submersos por suas “mágicas águas”.
Tudo isso através da lente, também mágica, do artista plástico e estilista Ronaldo Fraga. Fomos convidados desde o inicio de nossa visita a embarcar no velho Vapor Benjamim Guimarães, construído em 1913, e ainda em operação nas águas do Velho Chico (embora hoje operando somente como embarcação turística). Desde a foz, onde o rio se encontra com o mar até sua nascente; como diz o próprio encarte ao embarcamos passeamos “pelas lendas, religiosidades, cheiros e sabores, musica e pelos costumes das cidades ribeirinhas, entre outros símbolos e características que são únicas ao São Francisco”. O rio se estende por um pedaço tão significativo de nosso país, que cruzá-lo, de uma ponta a outra, nos possibilita entrar em contato com uma parte significativa da diversidade cultural de nossa terra, de nossa gente.
Para alguns alunos, foi um reencontro com as origens. Para outros, foi o encontro com a diversidade cultural que identifica nosso povo; mas que muitas vezes permanece esquecida; outras, desconhecidas da grande maioria de nossos jovens.
Também foi a oportunidade para uma viagem mais profunda, para o interior do universo criativo do autor. Um momento de reflexão pode nos ajudar a perceber que tudo aquilo que vimos e ouvimos, enfim, experienciamos, como dissemos noutra parte, vimos, sentimos e ouvimos através do olhar sensível do artista.
Em O Chico morre no mar – descobrimos que as transformações, as degradações provocadas pelo homem estão transformando a natureza do Velho, diminuindo sua vazão, enfraquecendo sua força, matando sua vida.
Em O gosto que o Chico tem – conhecemos sua diversidade vegetal e animal, descobrimos também que esta diversidade, em função da degradação do rio, começa a declinar, a diminuir...
Conhecemos e descobrimos também as vestes dos antigos caixeiros viajantes, as memórias a devoção; vimos no mapa o traçado do rio, rasgando a terra como uma veia, ou melhor, como uma artéria. Ouvimos as vozes, as vestes, o fuxico. Enfim, fomos submersos nas águas desde sempre sagradas do Velho Chico; foi para os que estavam com seus espíritos dispostos e abertos um batismo. Fato que nos faz relembrar a antiga passagem de Heráclito que dizia: “num mesmo rio não se entra duas vezes”. Neste caso, nos permitimos uma reinterpretação: “do Velho Chico não se sai o mesmo”.

Vale ainda lembrar, para finalizar, a agradável companhia de um pequeno (capetinha), que sabia tudo do rio, das lendas e até de seu povo. Ao que parece sua professora, após uma visita a exposição, inspirada por ela, resolveu realizar atividades envolvendo os conhecimentos que havia adquirido na exposição em sua escola. Experiência que corrobora minhas convicções de que a visitas a museus, exposições artísticas e seus congêneres, enriquece não somente o universo simbólico das professoras e professores, mas, como consequencia de seus alunos também.



Obs.: este texto foi escrito de uma só tacada, de tal modo que não tive tempo de corrigi-lo ou verificá-lo, espero tenham paciência para lê-lo e que lhes possa ser de alguma forma proveitoso.
Msc.
Prof.: Jairo de Sousa Melo


[1] http://www.ciee.org.br/portal/hotsites/feiradoestudante11/estudantes/oevento.asp acesso em 28/5/2011 as 20:15 hs

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Sei lá



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Caro senhor Ang Lee
Seu filme me fez de novo sentir como é pesado viver.
(Há coisas que nos fazem sentir realmente como é pesado viver.)
Na verdade nem eu sei se isso é um elogio. Vivemos a vida inteira fugindo dessa sensação. Não saberia dizer se é verdadeiro que “às vezes” buscamos senti-la. “Às vezes” a vida é uma dor que viver alivia. Quando sinto todo peso da minha vida, quando escuto o silêncio que é, quando me recordo que, de fato, estou só, procuro o refugio das minhas amizades.
Escrever é um refúgio, caminhar é um refúgio, dirigir é um refúgio, criar é um refúgio, encontrar...
Refúgio é fugir, fugimos de nossa condição, porque viver é intransitivo.
A vida tem sido pra mim como uma experiência mística, uma realização solitária, plena e absoluta. A sensação de plenitude é ao mesmo tempo causa de um estranho vazio, da percepção do vazio que nos cerca, do vazio que nos preenche. A descoberta do eu solitário é um encontro que procuramos evitar. Buscamos amor, para não sentir a vida. Buscamos amizade para compartilhar a dor. Buscamos a companhia de alguém que nos ouça para não ouvirmos o silêncio.
Mas nos dias, nas noites que mergulhamos profundamente dentro de nós mesmos, re-encontramos nossa dura e verdadeira natureza, a solidão.
Por outro lado, é interessante notar que em “nosso” discurso nunca estamos inteiramente sós.