Ler ou ver Luiz Felipe Pondé “o filósofo” falando sobre filosofia ou política por vezes é semelhante a assistir nos dias atuais um enterro seguido por um cortejo carpideiras. É tão inveraz que às vezes se ri, às vezes se chora.
Raro é vê-lo produzir pensamento no sentido da expressão de alguma originalidade, no sentido da expressão de seu “gênio”. Mesmo assim ora ou outra se aventura em tais tarefas, é neste momento que deparamos com um pensamento opaco, impenetrável ao entendimento e a reflexão.
Em seu discurso, por exemplo, o tema capitalismo converte-se numa doutrina de fé. Em geral não progride, como num argumentum ad nauseam, apenas repete-se cansativamente, uma ladainha fatigante, tétrica que emula de forma enviesada o mito do “eterno retorno do mesmo”. Quando não implica simplesmente em puro niilismo estéril, labirintos, círculos viciosos, antinomias.
No mais das vezes, suas ponderações são sempre paradoxalmente reativas: reclama de pegar pouca mulher, enquanto seus adversários pegam as melhores e mais divertidas. Reclama, reclama, reclama...
Ou seja, a expressão de sua “potência de ser” não consiste na expressão de sua individualidade, de sua singularidade; mas numa reação despeitada diante do mundo como ele inexoravelmente é ou esta.
Isso ocorre porque como poucos na história da filosofia, provavelmente ele tenha se especializado na arte do blá blá blá. Contudo, não seria exagero afirmar que nele esta arte tenha alcançado um alto nível de "sofisticação".
Filosofia... Ensaios, poesias, crônicas, criticas e reflexões filosóficas sobre o humano, a natureza, a ciência, a politica, a arte e a cultura em geral.
domingo, 3 de março de 2019
quarta-feira, 12 de dezembro de 2018
Ciência, educação e opinião
É preciso estar atento.
Eis o perigo e eis o cenário da
luta a qual estamos expostos.
Nosso papel de educadores, neste
sentido, nos convoca a ter uma atitude altiva com relação ao enfrentamento e ao
combate das irracionalidades em suas várias vertentes e feições. _Da minha
parte a única coisa do campo dos instintos que reconheço e admito prevalecer
sobre os fatos e os dados da experiência é o amor, por que como diz Nietzsche,
só o amor está sempre além do bem e do mal. Excetuando essa situação
idiossincrática, o que muitas vezes não se percebe ao aceitar, ao tolerar o
discurso irracionalista como parte do jogo democrático é que em seu interior
subjaz a sombra do autoritarismo, da intolerância, do preconceito e
consequentemente o embrião de toda discriminação e exclusão social.
A má formação científica entre os
educadores tem sido apontada não raras vezes como uma das principais causas do
déficit educacional em nosso país. Segundo alguns especialistas, esta
deficiência é o que se revela nos baixos índices alcançados por nossos
estudantes em exames nacionais e internacionais de verificação do nível de
conhecimento (também se revela nos números alarmantes adeptos de teorias
conspiratórias que se espalham pelas redes sociais). Embora entrem em jogo
nessas avaliações outros aspectos sociais que não só a aprendizagem sistemática
é preciso admitir que esta deficiência na formação dos educadores possa ser sim
considerada um dos relevantes obstáculos ao desenvolvimento da educação e ao
enfrentamento dos problemas que nos cerca e relega nosso povo a um perpétuo
estado de subdesenvolvimento.
Obviamente, não é a educação nem
são os professores os principais ou os únicos responsáveis por esse estado de
coisas ou por sua absoluta resolução. Antes e, sobretudo, é preciso exigir uma
efetiva atuação do Estado na elaboração de politicas públicas que promovam as transformações
estruturais e substanciais necessárias (Entra as quais a melhoria dos salários
é sem sombra de dúvidas um fator preponderante). No entanto, não há como negar
o papel de protagonismo que está reservado à educação na superação das
desigualdades e do obscurantismo que solapam nossa sociedade ameaçando nossa
liberdade e nossa democracia.
É neste sentido que afirmo que
contra as crenças obscurantistas transfiguradas sob o signo da
"opinião" devemos opor a força iluminadora da razão, a análise criteriosa
e objetiva dos fatos e da realidade, o saber cético e crítico da ciência, da
razão e da reflexão radical e crítica.
Enfim, não podemos e não devemos
ser tolerantes com a intolerância mesmo aquelas transfiguradas numa aparentemente “inofensiva opinião”.
sábado, 17 de novembro de 2018
Avareza
"Não é difícil convencer os seres humanos a quererem mais. Humanos cedem facilmente a cobiça".*
Ser avaro na idade média era considerado uma "coisa ruim", isto é, atribuía-se um valor moralmente negativo para avareza. Desta forma, continha-se a cobiça e a sociedade seguia adiante razoavelmente equilibrada, quer dizer, pobres e pequenos comerciantes eram contidos em seu impeto de consumo enquanto a nobreza gozava e ostentava seu luxo.
Mas a modernidade inverteu esse antigo valor moral, inverteu o mundo. Uma vez que na modernidade a cobiça exerce um papel importante ao impulsionar a produção industrial e comercial.
Neste cenário a avareza torna-se um valor positivo. O mundo moderno, portanto, ira promover um verdadeiro culto da cobiça já que neste novo cenário ela constitui o verdadeiro motor para o desenvolvimento econômico.
*(Cf. Yuval Harari)
quinta-feira, 15 de novembro de 2018
O Sacrifício
O Sacrifício
O projeto econômico do novo
governo se encarado de forma absolutamente isenta, se encarado de maneira
formal, pode de fato ser considerado absurdamente
racional (poderíamos ter usado a
expressão – estupidamente racional,
sem temer cometer qualquer excesso linguístico, qualquer erro. Se e somente se
os leitores tomassem ao pé-da-letra a interpretação das palavras, dos signos; quero
dizer, supondo que a leitura fosse também e tão somente um ato estritamente
racional – assim sendo; teríamos, portanto, uma interpretação literal dos
termos. Mas será?). Isso se ignorássemos todas as “circunstancias
politicas” que cercam os atos de uma administração pública, os atos de quem
governa um país, uma república. Somente nessa hipotética e improvável circunstancia,
poderíamos encará-lo assim: Um projeto absurdamente racional
(estupidamente).
Por conseguinte, ‘o Brasil do
futuro’, imaginado nesse, ‘digamos’, arrojado projeto econômico será um país
para poucos. Ora, pode-se considerar que seja um projeto econômico em amplo
aspecto. É o próprio Paulo Guedes quem expressa de forma direta e contundente,
sem rodeios, essa necessidade. Ao menos foi o que quis transparecer ao afirmar em
entrevista recente que “terá que haver sacrifícios!”.
A receita é relativamente
simples, se há um “mal” a ser espiado numa sociedade tribal/oligárquica, há que
haver um sacrifício. Não obstante, quando se fala em sacrifícios em um país
como o Brasil nunca se quer dizer de fato ‘o sacrifício de todos’; e, se há
sacrifícios, também devemos considerar que historicamente é sempre o corpo a
ser molestado, açoitado, flagelado. Mormente, os corpos imolados nunca são os
corpos das elites; mas enquanto outrora era o corpo dos negros, dos índios, dos
degredados, hoje tomam seus lugares os corpos dos pobres, das minorias, dos
trabalhadores. Isso simplesmente por que, numa democracia, o povo é o corpo.
Essa divagação nada tem de
oposicionista, de pessimista, de moralista, não aspira sequer fazer simples crítica
ao projeto. Exercita no máximo uma reflexão breve e objetiva do que está em
jogo (estou em dúvida se se trata de uma fria ou apaixonada observação). É
provável, e acredito nisso com um bom grau de franqueza, que se o economista
levar a termo seu projeto, ao final e ao cabo, o país terá sido passado a
limpo. Teremos, enfim, nossa pequena revolução burguesa, projeto retardatário de modernidade.
Mas não há como ignorar que há um
preço a ser pago. Por aqui e por ali, como quem lança pistas, o economista vai revelando
indícios; vai revelando seu preço: “salvar a indústria, apesar dos
industriários”. Do mesmo modo, e por extensão poderíamos entrever proposições
tais como “salvar a agricultura, apesar dos agricultores”; “salvar o comércio,
apesar dos comerciantes”. E, por fim, quem sabe “salvar o Brasil, apesar dos
brasileiros” (alguns pelo menos). É e sempre foi assim, não na pequena história
do Brasil, mas na grande História, na história dos povos, da humanidade.
Por fim, o mundo segue adiante,
apesar dos sacrifícios. Aliás, para concluir, não seria incorreto observar que o 'arrojado projeto
econômico' pressupõe uma coerência lógica tecnicista, lógica que parece seguir
um principio básico da física: “não é possível acelerar, mudar de trajetória,
ultrapassar determinados limites num corpo em movimento inercial senão abandonando um tanto de carga”. Senão
deixando para trás um pedaço do seu próprio corpo. Que significa isso, senão um
sacrifício!?
sexta-feira, 14 de abril de 2017
O último dia
O que você faria se soubesse que tem somente mais um dia de vida?
Pedro acordava todos
os dias às cinco da manhã, detestava faltar ao trabalho. Os motivos e
justificativas para sua resiliente assiduidade, porém não eram tão nobres. Era
um sujeito convencional, tíbio mesmo e temia apenas ser demitido. Bem, há
quem pense que seja perfeitamente normal que um sujeito se preocupe em perder
seu emprego e isto justifique suficientemente sua prudente, porém pusilânime dedicação. Mas, convenhamos, viver uma vida de
trabalho sob a ameaça da demissão não é fácil para ninguém, aliás, não é nada saudável.
E o ambiente competitivo de sua empresa criava esse tipo de tensão e expectativa. 'A meta ou a rua', esse era o mantra do terror. _ A bem da verdade, suas tripas ora se contraiam, ora destendiam e se agitavam. Algumas vezes sofria com a constirpação, outras com a danação. E assim era, todas as noites de domimgos quando lembrava das metas, do trabalho. E, mesmo não gostando nem um pouco do seu emprego, lhe causava ainda mais mal pensar na ideia de mudar, tinha verdadeira ojeriza por mudanças. Também considerava vagabundos "aqueles sujeitos desempregados". Pensava assim, mesmo daquelas pessoas nas filas de emprego por aí. "Mais uma arruaça!" Detestava
arruaça. Paranoicamente, imaginava sempre haver alguém conspirando para
puxar-lhe o tapete no trabalho e tomar-lhe a promoção; mesmo sabendo que nos
últimos dez anos não houvera promoção alguma em sua empresa. (- É uma questão de
contenção de despesa! Afirmava a chefia; – nossos colaboradores precisam
compreender - complementavam)[1].
Mesmo assim, cogitava ele, "quando forem liberadas as promoções, quero estar
qualificado".
Na última
terça-feira, há uma semana aproximadamente, porém, Pedro faltou ao trabalho, - coisa absolutamente rara! O pessoal
do RH informou que - foi por “problemas de saúde”. Teve que ir ao consultório
médico pegar o resultado de uns exames que havia feito – ultimamente vinha
sofrendo de fortes dores de cabeça e nos últimos dez anos, como dito,
recusava-se a faltar, nem mesmo tirava suas folgas-prêmio. No entanto, um desmaio na última semana o levou a uma quebra na sua rotina "a coisa apertou, tive que procurar um médico".
Ficamos sabendo
depois que ele tinha recebido um diagnóstico de câncer na cabeça que
dizia o seguinte: câncer na base anterior de seu lobo frontal. Para o médico, o câncer
estava tão próximo de seu hipotálamo que na verdade ele não conseguia explicar
como Pedro ainda estava vivo, andando e se comunicando.
Talvez as doses
cavalares de analgésicos que ele vinha tomando nos últimos dias pudesse
explicar alguma coisa, mas sua sobrevida para o experiente neurologista era um
verdadeiro fenômeno. Ao que se sabe o médico foi duro, direto, sem rodeios no
diagnóstico e explicou como quem lesse um obituário: - Bem, senhor Pedro,
as noticias não são boas. O tumor em sua cabeça encontra-se já em estado tão
avançado que há em seu crânio uma verdadeira bomba relógio. Suspeita-se que seja um
tumor maligno, visto que seu crescimento, sua multiplicação celular parecia estar acontecendo numa taxa tão
exponencialmente alta. Neste ritmo sua sobrevida poderia até ser calculada em horas, restando inevitavelmente pouco tempo para que o
câncer atinja seu hipotálamo e detone seu sistema nervoso central colapsando inclusive o
sistema nervoso autônomo, o que implicará numa consequente falência dos seus
órgãos. Por esta razão devo alertá-lo que é quase certo que o senhor dispõe de no máximo mais algumas horas de
vida.
Pedro ouviu tudo
aquilo com um olhar distante e vazio, parecia meio desligado. Na verdade estava
concentrado, apenas lembrara que havia esquecido seu grampeador em cima da mesa, certamente um de seus colegas estaria usando seu grampeador - cogitava.
Para o médico não era possível decifrar na expressão facial de Pedro se ele atinava para a seriedade da situação, para a
gravidade de seu diagnóstico ou se estava em estado de choque. O estranhamento do
médico só aumentou quando viu seu paciente se levantar da cadeira e sair da
sala cumprimentando-o, desejando-lhe um bom dia e um 'até breve'. Diante disso, Dr.
Renato, experiente neurologista, não teve dúvidas, de fato seu paciente estava em
estado de choque. Pensou em perguntar se Pedro estava acompanhado, mas
hesitou...
Pedro não tinha
parentes na cidade e há pelo menos dez anos não entrava em contato com sua
família. O motivo não se sabe, mas tudo indica que tenha simplesmente se
afastado e deixado de se comunicar. Logo o tempo e a distância tornaram-se eles
mesmos um constrangedor empecilho. A partir daí por bloqueio ou vergonha passou a
evitar o contato. Razão pela qual os laços fraternos foram se esgarçando como um velho tecido. Tanto que sequer sabia dizer se seus pais estavam vivos ou mortos.
Ao que parece essas coisas de família não lhe interessavam mais, entediavam-no
mesmo.
No dia seguinte, o som estridente de
seu despertador soou às cinco da manhã, era então quarta-feira. Não costumava
tomar banho antes de sair para trabalhar. Usava lenços umedecidos. Apesar de
ter um moderno e agradável chuveiro em seu banheiro, seguiu a mesma rotina de sempre. Levantou-se. Sempre pelo lado direito da cama. Enfiou os pés nas sandálias. Desligou o alarme. Deu a volta na cama e apanhou seu relógio de pulso que deixava na
estante, sempre do lado oposto. Não se espreguiçou, apenas rumou para o banheiro.
Parou diante do espelho e se olhou por uns segundos, como se houvesse notado alguma coisa estranha, mas, nada. Começou sua sessão de lenços umedecidos nas axilas, no
pescoço, nas genitálias. Em seguida jogou um pouco de água no rosto. Fez um
gargarejo. Cuspiu na pia. Olhou de um lado para o outro o rosto, "a barba ainda
esta boa". Vestiu-se andando. Não costumava presta atenção em detalhes, a camisa
tinha dois vincos na manga, a calça também.
Aproxima-se do
horário em que apanha o 907, no ponto em frente ao seu edifício. "Se perder o
907, vou ter que pegar pelo menos duas conduções até o trabalho; não quero
correr o risco de me atrasar". Tomou um gole de café amanhecido e frio e saiu.
Apesar de pegar o mesmo motorista e o mesmo cobrador há quase dez anos, não costuma falar com ninguém e, quando falava, balbucia somente monossílabos, vez ou outra dissílabos, se necessário. Com os outros passageiros, nem pensar, preferia preencher as palavras cruzadas que baixara num aplicativo do celular. No ponto próximo a Paulista desceu de cabeça baixa e andou mais duas quadras, atravessando por uma praça com belos jardins. Nem conseguira perceber que apesar do clima as azaleias floresciam. Entra no edifício Montreal, o elevador é lento, cheio e o ar condicionado está quebrado, _ tanto faz! São pelo menos cinco paradas até chegar ao seu piso, mesmo assim, insere seu cartão exatamente no horário.
Apesar de pegar o mesmo motorista e o mesmo cobrador há quase dez anos, não costuma falar com ninguém e, quando falava, balbucia somente monossílabos, vez ou outra dissílabos, se necessário. Com os outros passageiros, nem pensar, preferia preencher as palavras cruzadas que baixara num aplicativo do celular. No ponto próximo a Paulista desceu de cabeça baixa e andou mais duas quadras, atravessando por uma praça com belos jardins. Nem conseguira perceber que apesar do clima as azaleias floresciam. Entra no edifício Montreal, o elevador é lento, cheio e o ar condicionado está quebrado, _ tanto faz! São pelo menos cinco paradas até chegar ao seu piso, mesmo assim, insere seu cartão exatamente no horário.
Sua mesa fica
distante de qualquer janela, em todo caso a mais próxima dá para a parede do
prédio vizinho, é cinza o dia todo! Em sua baia descobre que de fato alguém
usou seu grampeador, "provavelmente Eduardo, o gordo, está sem grampos"! Olha meio
emburrado para os lados e da início a sua rotina. Basicamente, carimbos,
registros eletrônicos e escaneamento de documentos pertinentes a contratos de
seguros. A julgar pelo volume de documentos em sua mesa o dia ia ser longo. Dia
comum, maçante. Apesar da insatisfação e da rotina, vendeu todas suas férias nos últimos anos. Quem sabe venderia a deste ano também!?
Aproxima-se a hora
do almoço, seu colega de baia convida-o para almoçar: - hoje tem feijoada no restaurante
do primeiro andar! - Não, obrigado, pedi uma marmita. A marmita barata já está
quase fria, o alface dentro da comida já está murcho, e o tomate por cima da
comida dá ao arroz um desagradável sabor azedo. Come tudo na sala do refeitório
da empresa. Tem pressa, "há muito o que fazer"!
O retorno rápido ao
trabalho lhe causa alguma náusea, mas nada que alguns analgésicos não resolvam.
Desde há algum tempo passou a tomar analgésicos por qualquer motivo. Durante o
resto da tarde, chega a ouvir o ruído da chuva que nos últimos dias tem caído no
meio da tarde. O clima varia tanto nesta época do ano em São Paulo que se
tem a impressão de ter vivido pelo menos três estações em único dia. Calor ao meio dia, chuva no meio
da tarde e frio ao entardecer. O tempo escoa lento, porém implacável. Mas, a
monotona rotina o detém entre carimbos, transcrições e digitações.
No fim do expediente
algo de inusitado acontece, os colegas o convidam para um happy hour, - Pedro,
hoje vamos tomar uma cerveja e ver jogo no bar lá da praça! Quer vir conosco?
Diante do embaraçoso convite recusa. - Não. Tenho umas coisas para resolver lá em
casa. - Ok!
No fim da tarde, um minuto de distração sabe-se lá com o que o atrasa, mas, enfim, consegue pegar seu ônibus, que, no entanto, quebra a cerca de três quadras
de sua casa. Sem alternativa, decide seguir o resto do percurso a pé. O dia ainda
estava claro e a chuva do meio da tarde havia deixado o céu azul e límpido como nunca
para este horário. O frescor do ocaso favorecia e as pessoas se juntavam
nos bares e nas mesas dá calçada para o happy hour. Não prestou muito atenção, como sempre baixou
a cabeça a apertou o passo rumo ao seu destino.
Na porta do
apartamento sentiu algo estranho. Cismou por uns segundos antes de enfiar a
chave na fechadura, ponderou..., parecia considerar algo, mas mesmo assim, num
movimento quase que mecânico, quase que automático, virou a chave. Tonteou e
caiu ali mesmo. Só sobre a soleira...
Encontraram-no assim
mesmo no dia seguinte, metade do corpo para dentro do apartamento e as pernas para fora, meio que encolhido numa posição fetal.
Comentavam no dia seguinte durante seu velório.
Após o enterro os
colegas de trabalho resolveram tomar 'uma' num boteco ali mesmo, próximo ao
cemitério. Foi Eduardo, o gordo, herdeiro oficial das miudezas de escritório de Pedro,
quem puxou o assunto...
- O que vocês fariam se soubessem que tinham somente mais um dia de vida?
- O que vocês fariam se soubessem que tinham somente mais um dia de vida?
[1]
Muito embora, os últimos três balancetes trimestrais da empresa tivessem apresentado
apenas índices positivos.
segunda-feira, 27 de março de 2017
FOLHETIM 02 - SÚBITA REPENTINA
DA IDA À CONVENÇÃO
OU
UM PAPO DESCONFORTÁVEL EM UMA VIAGEM DE 09 HORAS
Nos dias que ficara na cidade interiorana seguira a cartilha como um digno príncipe em treinamento. Fora uma viagem lenta, em companhia de Íris, vizinha de baia do escritório, chefe do setor de relações públicas da empresa, e Nestor, velho fumante, rabugento e um dos donos da maior empresa de arquitetura e construção civil de São Paulo, a Agamedes S/A.
Chris ficara o tempo todo no banco de trás de um carro automático, grande, confortável e com ar condicionado muito gelado, que o fazia esquecer o calor externo do verão de novembro. Vez ou outra, o conforto do ambiente refrigerado era incomodado por aquele Nestor que, guiando os empregos dos dois passageiros e também o próprio carro, sentia-se no direito de comandar a falência dos pulmões alheios, abrindo a janela e fumando um cigarro. Em menos de meia hora, outro. E depois outro.
Para romper o silêncio e mostrar-se determinada a animar quaisquer tipos de situações sociais, até mesmo uma viagem de nove horas de carro com um chefe que conseguia extrair de um sim, um não, Íris puxava assuntos perdidos, desde o ambiente até a rotina diária dos companheiros de trabalho, com a habilidade de promover, naquele momento, não uma viagem para um evento de trabalho, mas um trabalho que era viajar para um evento de trabalho. A cada pergunta, Chris sentia-se apertado no banco de trás, envolvido em inúmeras resoluções possíveis que não vinham a colocá-lo em alguma enrascada, quer com o velho, quer com Íris.
- Então, Chris, como estão as coisas na área de projetos?
E ele respondia com sentenças que não definiam nem um estado de extremo stress, nem de um relaxamento completo.
- E a galera lá do projetos, dizem que eles são super animados! São muito envolvidos com os outros departamentos!
E acabava que aquelas perguntas lhe stressavam mais do que realizar os projetos isolado numa baia, seguindo o protocolo de uma rotina repetitiva que era ajustar detalhes matemáticos de um desenho digital numa tela de computador. Não era bom com as palavras. Não tinha o traquejo nem o estudo daquela garota esperta. Mas enxergou uma brecha que poderia lhe tirar daquele rumo de prosa e talvez despertasse ao velho a vontade de abrir a boca:
- Então, quais são os planos? Eu, bem, até agora, não entendi muito bem porque tenho que acompanhá-los nessa viagem... Não que eu não desejo estar aqui, não é isso... Só que eu acho que sou mais útil no escritório... Bem, é... Não que...
- Cala a boca, diabo! - conseguira quebrar o silêncio do velho. - é um inferno ficar ouvindo esses seus mi mi mis. Você não contou nada pra ele, não?
Íris sorriu e como uma gatuna das palavras, soube lidar com aquele climão com muita sapiência:
- Em uma viagem de nove horas, a gente preparava ele melhor do que deixá-lo preocupado a semana inteira. Ele é do projeto, vai que erra um número e PUF! Lá se vai um edifício abaixo... Mata pessoas... Sabe como é?
- Você tem toda razão. - o velho não abria muito bem o olho. Tinha sombrancelhas grossas e expressão amarrada que deixava os olhos apertados, quase invisíveis. Na primeira hora, causou certo receio tanto em Íris como em Chris, mas as curvas, os faróis e o limite de velocidade eram respeitados com maestria. Ou era um piloto automático, ou algum tipo de sexto sentido do velho. - Esse imbecil ia esquecer tudo mesmo. - Chris não entendia aquilo como uma ofensa. Nunca. - Você é neto do Trofônio Agamedes, o homem que dá nome a nossa empresa. Seu avô, junto do irmão mais velho, foram os maiores arquitetos de sua geração. Construíram edifícios de grande destaque em São Paulo e em outros Estados do país.
Chris não entendeu os motivos de relembrar uma história conhecida. Mesmo a empresa que trabalhava levar o nome do avô, ele não tinha parte alguma na empresa, pois o avô morrera pobre, passara a pobreza para os filhos e só os netos começaram a encher um pouco os bolsos. No fim da vida, seu avô assumira que todas as suas construções foram realizadas com matéria-prima roubada e doou toda sua riqueza, com exceção da casa que morava com sua esposa, para melhorias sociais de toda região que explorara ilicitamente. Já não tinha mais tempo de vida para ser preso e morrera meses depois do depoimento. A família foi parar nas mídias nacionais e internacionais. Todos acabaram esquecendo do evento, até os arquitetos. Chris nunca sofrera para arrumar empregos na área de arquitetura e ninguém nunca comentara sobre o império de seu avô. Até entrar na Agamedes S/A. Lá, todos sabiam da história do velho, que era lembrada anualmente nas festas de fim de ano.
- Não entendo...
- Então, garoto, te trouxemos para que você sorria e repita a todos as histórias de seu avô. Para quem conversar com você, com exceção de mim e a bonequinha aqui, você é uma revelação naquela empresa. Uma revelação, porque herdou, da porra do seu avô, o conhecimento de um velho safo!
Íris sorriu e Chris sentiu-se amiudado no banco traseiro. Era o neto que menos se interessara pelos passados familiares, mas que tivera mais contato com seu avô.
sábado, 18 de março de 2017
FOLHETIM 01 - SÚBITA REPENTINA
- Uma cerveja por favor. Para acabar com o horror que é ser Atlas.
O telefone do quarto tocou.
- Senhor, são oito e cinquenta.
Um pouco tangido pela confusão de não saber as dimensões de onde estava deitado, agradeceu num ronco silencioso, devido a dificuldade de tornar verbo as sentenças que pensava. As primeiras palavras do dia sempre lhe saíam incompreensíveis. Sentiu na cabeça o peso de dois mundos e não via a hora de arrumar as malas e seguir estrada. Participar de eventos empresariais sempre fora uma grande chatice quando não se tinha vocação para aquilo que fazia. Fingir sorrisos, esboçar reações, entender caretas, falar na hora exata, o verbo que se esperava, na aspiração que se cartilhava. Essas coisas todas lhe confundiam em algum momento. Seu forte sempre fora o manuseio artístico de miniaturas plásticas. A criação de humanos e animais inanimados. De bonequinhos à semelhança de criaturas reais, vivas, que perambulavam seu mundo. As pessoas chamavam de brinquedinhos bizarros, piadinhas de mal-gosto, o que ele afirmava, internamente, arte! A nova arte! A viagem fora essencial para entrar de cabeça nesse novo universo que começava a ganhar legitimidade social.
Tropeçara duas ou três vezes no receituário de conduta do outro mundo que habitava e tinha de enfrentar pelo menos aquela semana inteira. Vacilou ao pular algumas etapas daquela maldita carta de príncipe maquiavélica estabelecida na cabeça de todo homem de negócios em produção. Aquelas etapas do como se comportar fora de seu lar, numa cidade distante daquela que sempre vivera. Em meio a chefes, clientes e uísque de refil, viu-se comprometido pela disposição social de testar seus limites etílicos e pela necessidade institucional de fazê-lo sem ultrapassar os limites naturais do corpo. Sentindo-se numa batalha de reinados, foi bobo da corte, quando deveria exercer a simples função de um coadjuvante de acontecimentos reais. Acostumado com a cerveja, teve de consumir aquela tortura que lhe torrava a garganta e pouco a pouco o tornava um debilóide IN na relação social com aqueles homens dessemelhantes. O uísque, que todos enchiam o peito para dizer que tomavam porque descia bem, lhe causara um rombo espiritual e fonético que ele achou irreparável na noite passada. Após dois copos, sentia sua língua mole e já não conseguia distinguir, fisicamente, enquanto falante e ouvinte, bilabiais, fricativas, oclusivas, surdas e sonoras. Nem tantas outras. Impulsionado por um santo ruim, pedia mais copos, como se conseguisse ser capaz de controlar aquelas sensações pelo agrado do vizinho que lhe empurrava sempre um a mais. Mais um, mais um.
- Vira!
E o retardado virava!
-Vira!
E virava. E ria. E craseava todas as palavras terminadas com vogais, semelhantes ou não, inventando, na tentativa de um português formal, uma língua germânica com duas ou três entonações fonéticas por palavra.
Eis que, para o desafortunado inexperiente, o limite orgânico é atingido das maneiras mais cômicas em lugares mais inapropriados. Falando com um dos clientes, que encontrava-se em condições brandas de alcoolismo, sentiu o mundo retornando em sua garganta. A pressão de todos os seus órgãos em manifesto.
- Não aguentamos mais, seu imbecil!
Do estômago ao esôfago, sentindo um breve e rápido desprazer anal, vomitou. Fora, talvez, o queijo. O queijo, o líder da rebelião, ou o bucha de canhão que vem a frente, ordenado pelo General Uísque. Nunca gorfou no colo de um homem antes. Muito menos um homem tão importante como o cliente de seu chefe. Também nunca desmaiou após um vômito. Muito menos um desmaio de vinte segundos, que só lhe custara o desprazer de sentir o cheiro de seu vômito misturado ao tecido do terno importado de seu cliente estrangeiro. Aquele conjunto todo, fez com que ele sentisse ainda mais ânsia e, tomado pelo desconforto físico, sentou muxoxo no lugar de qualquer um e recebeu a atenção de pessoas, das mais desconhecidas, que lhe ofereceram água e outras coisas mais.
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