terça-feira, 28 de julho de 2026

Para uma puta poeta

A borboleta que sonhou ser puta
                                                Poeta
E a poeta que,
Durante sua eclíptica,
Desenhou com palavras
O périplo de uma puta
                           Monarca
Nesse bicho-mulher
                         Amálgama
Em palavras prostituídas,
Uma subjetividade orgânica 
Poesia, 
Seda-azul, 
Signos,
Como uma tatuagem biológica
Um chamariz delicado,
Sensível
De viscosidade profunda...

Com aromas, cores e texturas
Sutis, 
Visceral e úmida
Detém da flor seu leite âmbar
Fértil, 
Que envolve e aquece

Live; de verdade é dar-se à 
                                           Vida
Entre outras, entre tantas 
                                          Sentir
Sensações pélvicas, pele, órgãos, 
                              Terra Radical, Chão
Live; entre letras e digitais

Entre pernas e desejos, 
                           Palatais
Y em 10 mil nervos
                            Sensoriais
             Sonha trêmula a borboleta...

domingo, 7 de junho de 2026

Mamãe

Mamãe hoje eu tive medo

Medo de não saber o que responder
Mamãe descobri, vou ter medo até te reencontrar 
Nas velhas coisas que deixei
Aquelas que não ouvi
As coisas que você cismou em  calar.
As coisas e os segredos
Mamãe vc não quis falar
Mamãe dor também se guarda em silêncio?
Ah..., a gente cala pra não chorar
Mamãe, o lamento também cura
Os seus lamentos agora são meus.
E eu guardião do silêncio
Decidi, vou cozinhar...
Foi a comida dos nossos ancestrais
E sua imagem surgiu no vapor
Para me dizer, tenha paciência
Mamãe 
As coisas passam, menos a dor
Falta ar
Falta ar
Falta ar
Faltar...
Mamãe, eu não consigo...
Não consigo respirar...

Mamãe o inhame já cozinhou
E sua imagem surgiu no vapor
Para me dizer, tenha paciência
Mamãe
E eu homem feito tive medo
Medo de nunca mais te encontrar
Mamãe 
Pode ser que eu mate o homem
Com um copo na mão 
No fundo de um bar...

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

FILHAS

Para dizer em voz alta

O que eu gostaria de ter ouvido

Elas me fizeram pai

E, uma vez dito: eu, si, mim... escuto.

Eu grito! Eu causo

Surto...

Elas me refazem

Educador de si,

Psiu..., Silêncio.

De sim, de não.

E digo, e, mim digo. Pai!?

Amor, afeto.

Só ouvir...

Qualquer não, não me corrige

Me traumatiza a civilização

...de mim, tornar mais ou menos humano.

Ser pai, resgata, invoca o meu ser filho, filhas.

Que vez em quando o tom

Do meu equivocado afeto é dor

Onde bastaria um olhar atento

E um gesto, amor...

Mas elas...

Todos os dias me ensinam

Minhas filhas, uma lição

No decorrer duma trilha

Serem filhas de um pai castrado

E atado e castro,

Paradoxalmente não casto

Me indago e sigo

Pai sem nunca ter tido?

Afeto como?

Diz o poeta: a alma humana é um abismo.

E eu lá do fundo, bem no fundo

Será por isso o grito!?

Enfim, ensino o que não aprendo?

Ardendo, ar prendo, só cres sendo, cendido.

Aprendo?

Ensino?

Nasce um, filha? nasce um pai!

Sem pai, sem filha?

Não ouço nem grilo, nem eco

Ai de mim...

sábado, 10 de abril de 2021

Amanhã 2019

Amanhã, quando amanhecer bem-tarde,
As crianças nascerão velhas
E caminharão pelas ruas em procissão

A frente um cortejo funebre...
Até de olhos fechados poderemos ver, acordar
E, enfim, o mundo como de fato é
O instante é, foi, jaz...
O hoje, um preterito pesado
Assassino a espreita do amanhã
E vamos quase ter, aprender, sobreviver

Quase...
Em meio a moribundos imundos
Aqueles que rejeitam a vida e cultuam a morte
Não haverá mais diálogo possível
Ainda que o silêncio, impossível
Jaz... o tempo, os amigos da inimizade
Dominam, os tolerantes com a intolerância
Uivam

Ode ao ódio, ode ao ódio
Cães! Silenciam pássaros e grilos
Amanhã, até onde a vista alcança só...; impossível avistar os que virão
Não será nem-fim, nem-começo

Só, sonho ruim, um hurro abafado, peito calado.

Sob uma luz amarela e turva,

Um mau presságio,

Na velha prateleira empoeirada nem-memória,

Sob um punhado de pó o medo
Uma sombra,
E a Terra erma, arrasada...

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

O homem que não queria pular



“...todos os homens sadios já pensaram no próprio suicídio...”
Albert Camus


Olhar o mundo do alto pode ser sadio, desde que não se confundam vertigem e desejo. Era fim de tarde, abri uma cerveja e, ainda relaxando, aproximei-me da sacada. O sol já rondava as bordas do mundo, iluminando as poucas nuvens que se esticavam no horizonte. Foi quando avistei a certa distância uma figura que se aproximava do parapeito no terraço do prédio mais adiante. Em principio, achei que fosse um desses loucos que andam por aí hoje em dia desafiando a vida, saltando de um lado para o outro, praticando um desses esportes modernos criado pelos franceses, o “le parkur”. 

Analisando melhor sua silhueta, porém, pude concluir rapidamente que não se tratava de uma pessoa na sua melhor forma.

O sujeito subiu na mureta do parapeito e olhou para baixo, como que mirando num ponto ou calculando um ângulo. Em seguida, antes que eu pudesse piscar, ele saltou. Tudo foi tão eterna e alucinantemente rápido, segundos...

Enquanto caia, seu corpo fez meio giro no ar, pude observar. [Hoje me pergunto: ora, se ele não encarou a certeza dura da terra, como desejava – será que o insondável azul do céu obliterou por alguns segundos as firmes convicções que o conduziram até àquele desfecho? O que terá sido das narrativas que possuía de si – passado, presente, futuro? _Agora pouco importam! Embora, nesta altura, eu tenha a firme convicção de que algumas coisas durante aquela queda tenham sido plenamente vividas: o instante, o azul e a queda.]

Tudo fica mais vivido quando o foco é o instante!

O som de seu corpo se chocando contra o chão ecoou na galeria dos prédios vizinhos com um forte estampido.

Logo, aglomeraram-se em torno de seu corpo inerte, curiosos. Para alguns daqueles que se aproximavam, conferir o resultado do desatino era morbidamente necessário.
Não demorou muito, e as vibrações no celular denunciavam, já circulam pelas redes sociais algumas fotos e vídeos da tragédia. Numa delas seu corpo jazia inerte no passeio pavimentado. Uma morte instantânea, certamente, conforme se podia apurar.

Porém, seus olhos, que permaneceram perturbadoramente abertos pareciam revelar algo de ainda mais assustador. Neles, algo como uma expressão de arrependimento provocava a tétrica impressão de que, talvez, em meio a sua trajetória rumo ao infinito, tivesse descoberto algo pelo qual valesse a pena ter vivido; mas que, no entanto, nunca lhe houvera ocorrido. Algo como uma iluminação súbita [quem sabe a (des)afortunada revelação de que apenas a vida enquanto experiência estética bastava, somente ela e nada mais, nenhuma razão, nenhum discurso ou narrativa eram suficientes ou mesmo necessários] e, junto desta epifania a infeliz e estarrecedora conclusão: Agora é tarde demais...

E, assim, seus olhos silenciaram fitando para sempre o infinito azul do céu.

sábado, 21 de dezembro de 2019

Filosofia e Ciência

As palavras indagar e investigar são palavras muito caras tanto para Filosofia quanto para Ciência.
Logo, a pergunta: qual a relação entre Filosofia e Ciência? Tem no meio filosófico, sobretudo, uma resposta trivial. Isto porque a filosofia não possui um objeto estritamente próprio, um objeto específico de investigação sua; como ocorrem nas várias ciências particulares (como a Física, a Química etc). A bem da verdade, "qualquer coisa", qualquer problema humano (e na Antiguidade até problemas formais ou naturais) pode ser objeto da reflexão filosófica.
Mais modernamente a relação entre filosofia e ciência ganhou uma importância fundamental. Conforme o filósofo da ciência Thomas Kuhn, isto pode ser explicado por uma mudança de paradigmas.
Porém, a meu ver, o filósofo que melhor classifica esta mudança é o francês Gaston Bachelard. Segundo Bachelard, a Filosofia da Ciência passa no século XX por uma verdadeira revolução copernicana. Segundo sua análise, a partir das teorias modernas como a relatividade, a teoria quântica e outras, torna-se necessário uma inversão completa no vetor da informação. Desde estas revoluções é a Ciência que passaria a informar a Filosofia. Supondo que se pretenda construir uma filosofia "contemporânea da Ciência".
Nos links a seguir compartilho um artigo de divulgação científica. Neles, o texto relata os resultados inicias de uma investigação no campo da Neurociência. Embora os resultados ainda sejam parciais (e, portanto, inconclusivos); ele no permite vislumbrar avanços significativos no conhecimento da fisiologia do cérebro com implicações inclusive de ordem cognitiva.
Logo, temos aqui um "problema" que também pode ser filosófico. Na medida em que a investigação cientifica nos leve a um conhecimento mais profundo da natureza humana, da fisiologia do cérebro e de seu funcionamento (Por que não!?). Admitir isto pode significar esta em consonância com aquilo que Bachelard propõe.
Você concorda?

Escreva ai abaixo suas duvidas, ideias e reflexões.




quarta-feira, 27 de março de 2019

Guaiamum

(em homenagem a Ailnton P. S.)


Meu padrasto, um baiano. 
Ainda muito jovem conheceu a dor da perda, a fome e a miséria.
E, como muitos outros nodertinos, fugindo delas embarcou num onibus para São Paulo.
Então, promessa de riqueza e prosperidade.
Alguma chance. 
Alguma oportunidade...

Como outros antes e depois dele.
A seduziu. 
A esperança de dias melhores ou mormente a fulga do sofrimento, não se sabe. 

Porém, Baiano coservou sua essência.
Cultivou-a, viveu-a sempre,
A bem da verdade.
Assim, trazia consigo em seu corpo, em sua alma, 
Em seu ente mais profundo uma bahianidade. 
Dado a fazer “baianices” boas...

Dia desses, cismou de caçar caranguejos no pequeno mangue, 
Do pequeno rio, 
Da nossa pequena cidade.
Por sorte ou destino deparou-se com um guaiamum dos grandes.
O bicho era branco e azulzinho, da cor do céu, da cor do mar.
Encantou-se imediatamente;
Engraçou-se verdadeiramente pelo bicho.

Viu nele tanta beleza que decidiu:
_ Bicho desses n'um pode morrer! 

Resolveu que iria criar o crustáceo.

Em casa.

Lá no fundo do quintal, 
dava todos os dias atenção e alfaces ao danado 
que carangueijava por todo o terreiro.
O bicho comia mesmo, comia de se enfartar.
Baiano, em sua singeleza, certo dia ponderou: 
_ o danado precisa d'um nome! 
E, de nome, deu-lhe ‘Guaiamum’.
Afinal, _ 'é arrimo de família'. Se ria e justificava ele.

Guaiamum, no entanto, não viveu muito; 
distante que estava de seu habitat natural.

Certo dia, Baiano deparou-se com o bicho morto lá no quintal. 
Entristeceu-se verdadeiramente...

Nos cortes ainda rasos de seu semblante percebia-se um pesar profundo... 
Dava dó até de oiá...

Acabrunhado, enterrou o bicho no pomar 
E, pôs-se a ruminar sobre brevidade da vida e a ligeireza da morte...

Baiano um dia enfastiou-se da vida também.

E, hoje, cá estou eu a ruminar...


domingo, 3 de março de 2019

Pondé o ressentido

Ler ou ver Luiz Felipe Pondé “o filósofo” falando sobre filosofia ou política por vezes é semelhante a assistir nos dias atuais um enterro seguido por um cortejo carpideiras. É tão inveraz que às vezes se ri, às vezes se chora.

Raro é vê-lo produzir pensamento no sentido da expressão de alguma originalidade, no sentido da expressão de seu “gênio”. Mesmo assim ora ou outra se aventura em tais tarefas, é neste momento que deparamos com um pensamento opaco, impenetrável ao entendimento e a reflexão.

Em seu discurso, por exemplo, o tema capitalismo converte-se numa doutrina de fé. Em geral não progride, como num argumentum ad nauseam, apenas repete-se cansativamente, uma ladainha fatigante, tétrica que emula de forma enviesada o mito do “eterno retorno do mesmo”. Quando não implica simplesmente em puro niilismo estéril, labirintos, círculos viciosos, antinomias.

No mais das vezes, suas ponderações são sempre paradoxalmente reativas: reclama de pegar pouca mulher, enquanto seus adversários pegam as melhores e mais divertidas. Reclama, reclama, reclama...

Ou seja, a expressão de sua “potência de ser” não consiste na expressão de sua individualidade, de sua singularidade; mas numa reação despeitada diante do mundo como ele inexoravelmente é ou esta.

Isso ocorre porque como poucos na história da filosofia, provavelmente ele tenha se especializado na arte do blá blá blá. Contudo, não seria exagero afirmar que nele esta arte tenha alcançado um alto nível de "sofisticação".

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Ciência, educação e opinião

O sujeito da irracionalidade defende com veemência o direito de "opinar", buscando elevar o preconceito e a ignorância ao mesmo status que possui o conhecimento científico, a razão, a sabedoria e o bom senso. De forma consciente ou inconsciente, porém, seu procedimento promove a deterioração da democracia uma vez que sob o pretexto de defender um princípio democrático submete ou suprime o intelecto e a razão. Todavia, deixar prevalecer a opinião infundada sobre os fatos e os dados objetivos da experiência, da pesquisa, equivale no campo da ciência a deixar prevalecer a força sobre a razão.
É preciso estar atento.
Eis o perigo e eis o cenário da luta a qual estamos expostos.
Nosso papel de educadores, neste sentido, nos convoca a ter uma atitude altiva com relação ao enfrentamento e ao combate das irracionalidades em suas várias vertentes e feições. _Da minha parte a única coisa do campo dos instintos que reconheço e admito prevalecer sobre os fatos e os dados da experiência é o amor, por que como diz Nietzsche, só o amor está sempre além do bem e do mal. Excetuando essa situação idiossincrática, o que muitas vezes não se percebe ao aceitar, ao tolerar o discurso irracionalista como parte do jogo democrático é que em seu interior subjaz a sombra do autoritarismo, da intolerância, do preconceito e consequentemente o embrião de toda discriminação e exclusão social.
A má formação científica entre os educadores tem sido apontada não raras vezes como uma das principais causas do déficit educacional em nosso país. Segundo alguns especialistas, esta deficiência é o que se revela nos baixos índices alcançados por nossos estudantes em exames nacionais e internacionais de verificação do nível de conhecimento (também se revela nos números alarmantes adeptos de teorias conspiratórias que se espalham pelas redes sociais). Embora entrem em jogo nessas avaliações outros aspectos sociais que não só a aprendizagem sistemática é preciso admitir que esta deficiência na formação dos educadores possa ser sim considerada um dos relevantes obstáculos ao desenvolvimento da educação e ao enfrentamento dos problemas que nos cerca e relega nosso povo a um perpétuo estado de subdesenvolvimento.
Obviamente, não é a educação nem são os professores os principais ou os únicos responsáveis por esse estado de coisas ou por sua absoluta resolução. Antes e, sobretudo, é preciso exigir uma efetiva atuação do Estado na elaboração de politicas públicas que promovam as transformações estruturais e substanciais necessárias (Entra as quais a melhoria dos salários é sem sombra de dúvidas um fator preponderante). No entanto, não há como negar o papel de protagonismo que está reservado à educação na superação das desigualdades e do obscurantismo que solapam nossa sociedade ameaçando nossa liberdade e nossa democracia.
É neste sentido que afirmo que contra as crenças obscurantistas transfiguradas sob o signo da "opinião" devemos opor a força iluminadora da razão, a análise criteriosa e objetiva dos fatos e da realidade, o saber cético e crítico da ciência, da razão e da reflexão radical e crítica.
Enfim, não podemos e não devemos ser tolerantes com a intolerância mesmo aquelas transfiguradas numa aparentemente “inofensiva opinião”.

sábado, 17 de novembro de 2018

Avareza

"Não é difícil convencer os seres humanos a quererem mais. Humanos cedem facilmente a cobiça".*

Ser avaro na idade média era considerado uma "coisa ruim", isto é, atribuía-se um valor moralmente negativo para avareza. Desta forma, continha-se a cobiça e a sociedade seguia adiante razoavelmente equilibrada, quer dizer, pobres e pequenos comerciantes eram contidos em seu impeto de consumo enquanto a nobreza gozava e ostentava seu luxo.

Mas a modernidade inverteu esse antigo valor moral, inverteu o mundo. Uma vez que na modernidade a cobiça exerce um papel importante ao impulsionar a produção industrial e comercial. 

Neste cenário a avareza torna-se um valor positivo. O mundo moderno, portanto, ira promover um verdadeiro culto da cobiça já que neste novo cenário ela constitui o verdadeiro motor para o desenvolvimento econômico.

*(Cf. Yuval Harari)

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

O Sacrifício


O Sacrifício
O projeto econômico do novo governo se encarado de forma absolutamente isenta, se encarado de maneira formal, pode de fato ser considerado absurdamente racional (poderíamos ter usado a expressão – estupidamente racional, sem temer cometer qualquer excesso linguístico, qualquer erro. Se e somente se os leitores tomassem ao pé-da-letra a interpretação das palavras, dos signos; quero dizer, supondo que a leitura fosse também e tão somente um ato estritamente racional – assim sendo; teríamos, portanto, uma interpretação literal dos termos. Mas será?). Isso se ignorássemos todas as “circunstancias politicas” que cercam os atos de uma administração pública, os atos de quem governa um país, uma república. Somente nessa hipotética e improvável circunstancia, poderíamos encará-lo assim: Um projeto absurdamente racional (estupidamente).

Por conseguinte, ‘o Brasil do futuro’, imaginado nesse, ‘digamos’, arrojado projeto econômico será um país para poucos. Ora, pode-se considerar que seja um projeto econômico em amplo aspecto. É o próprio Paulo Guedes quem expressa de forma direta e contundente, sem rodeios, essa necessidade. Ao menos foi o que quis transparecer ao afirmar em entrevista recente que “terá que haver sacrifícios!”.

A receita é relativamente simples, se há um “mal” a ser espiado numa sociedade tribal/oligárquica, há que haver um sacrifício. Não obstante, quando se fala em sacrifícios em um país como o Brasil nunca se quer dizer de fato ‘o sacrifício de todos’; e, se há sacrifícios, também devemos considerar que historicamente é sempre o corpo a ser molestado, açoitado, flagelado. Mormente, os corpos imolados nunca são os corpos das elites; mas enquanto outrora era o corpo dos negros, dos índios, dos degredados, hoje tomam seus lugares os corpos dos pobres, das minorias, dos trabalhadores. Isso simplesmente por que, numa democracia, o povo é o corpo.

Essa divagação nada tem de oposicionista, de pessimista, de moralista, não aspira sequer fazer simples crítica ao projeto. Exercita no máximo uma reflexão breve e objetiva do que está em jogo (estou em dúvida se se trata de uma fria ou apaixonada observação). É provável, e acredito nisso com um bom grau de franqueza, que se o economista levar a termo seu projeto, ao final e ao cabo, o país terá sido passado a limpo. Teremos, enfim, nossa pequena revolução burguesa, projeto retardatário de modernidade.

Mas não há como ignorar que há um preço a ser pago. Por aqui e por ali, como quem lança pistas, o economista vai revelando indícios; vai revelando seu preço: “salvar a indústria, apesar dos industriários”. Do mesmo modo, e por extensão poderíamos entrever proposições tais como “salvar a agricultura, apesar dos agricultores”; “salvar o comércio, apesar dos comerciantes”. E, por fim, quem sabe “salvar o Brasil, apesar dos brasileiros” (alguns pelo menos). É e sempre foi assim, não na pequena história do Brasil, mas na grande História, na história dos povos, da humanidade.

Por fim, o mundo segue adiante, apesar dos sacrifícios. Aliás, para concluir, não seria incorreto observar que o 'arrojado projeto econômico' pressupõe uma coerência lógica tecnicista, lógica que parece seguir um principio básico da física: “não é possível acelerar, mudar de trajetória, ultrapassar determinados limites num corpo em movimento inercial senão abandonando um tanto de carga”. Senão deixando para trás um pedaço do seu próprio corpo. Que significa isso, senão um sacrifício!?  

sexta-feira, 14 de abril de 2017

O último dia

O que você faria se soubesse que tem somente mais um dia de vida?


Pedro acordava todos os dias às cinco da manhã, detestava faltar ao trabalho. Os motivos e justificativas para sua resiliente assiduidade, porém não eram tão nobres. Era um sujeito convencional, tíbio mesmo e temia apenas ser demitido. Bem, há quem pense que seja perfeitamente normal que um sujeito se preocupe em perder seu emprego e isto justifique suficientemente sua prudente, porém pusilânime dedicação. Mas, convenhamos, viver uma vida de trabalho sob a ameaça da demissão não é fácil para ninguém, aliás, não é nada saudável. E o ambiente competitivo de sua empresa criava esse tipo de tensão e expectativa. 'A meta ou a rua', esse era o mantra do terror. _ A bem da verdade, suas tripas ora se contraiam, ora destendiam e se agitavam. Algumas vezes sofria com a constirpação, outras com a danação. E assim era, todas as noites de domimgos quando lembrava das metas, do trabalho. E, mesmo não gostando nem um pouco do seu emprego, lhe causava ainda mais mal pensar na ideia de mudar, tinha verdadeira ojeriza por mudanças. Também considerava vagabundos "aqueles sujeitos desempregados". Pensava assim, mesmo daquelas pessoas nas filas de emprego por aí. "Mais uma arruaça!" Detestava arruaça. Paranoicamente, imaginava sempre haver alguém conspirando para puxar-lhe o tapete no trabalho e tomar-lhe a promoção; mesmo sabendo que nos últimos dez anos não houvera promoção alguma em sua empresa. (- É uma questão de contenção de despesa! Afirmava a chefia; – nossos colaboradores precisam compreender - complementavam)[1]. Mesmo assim, cogitava ele, "quando forem liberadas as promoções, quero estar qualificado".
Na última terça-feira, há uma semana aproximadamente, porém, Pedro faltou ao trabalho, - coisa absolutamente rara! O pessoal do RH informou que - foi por “problemas de saúde”. Teve que ir ao consultório médico pegar o resultado de uns exames que havia feito – ultimamente vinha sofrendo de fortes dores de cabeça e nos últimos dez anos, como dito, recusava-se a faltar, nem mesmo tirava suas folgas-prêmio. No entanto, um desmaio na última semana o levou a uma quebra na sua rotina "a coisa apertou, tive que procurar um médico".
Ficamos sabendo depois que ele tinha recebido um diagnóstico de câncer na cabeça que dizia o seguinte: câncer na base anterior de seu lobo frontal. Para o médico, o câncer estava tão próximo de seu hipotálamo que na verdade ele não conseguia explicar como Pedro ainda estava vivo, andando e se comunicando.
Talvez as doses cavalares de analgésicos que ele vinha tomando nos últimos dias pudesse explicar alguma coisa, mas sua sobrevida para o experiente neurologista era um verdadeiro fenômeno. Ao que se sabe o médico foi duro, direto, sem rodeios no diagnóstico e explicou como quem lesse um obituário: - Bem, senhor Pedro, as noticias não são boas. O tumor em sua cabeça encontra-se já em estado tão avançado que há em seu crânio uma verdadeira bomba relógio. Suspeita-se que seja um tumor maligno, visto que seu crescimento, sua multiplicação celular parecia estar acontecendo numa taxa tão exponencialmente alta. Neste ritmo sua sobrevida poderia até ser calculada em horas, restando inevitavelmente pouco tempo para que o câncer atinja seu hipotálamo e detone seu sistema nervoso central colapsando inclusive o sistema nervoso autônomo, o que implicará numa consequente falência dos seus órgãos. Por esta razão devo alertá-lo que é quase certo que o senhor dispõe de no máximo mais algumas horas de vida.
Pedro ouviu tudo aquilo com um olhar distante e vazio, parecia meio desligado. Na verdade estava concentrado, apenas lembrara que havia esquecido seu grampeador em cima da mesa, certamente um de seus colegas estaria usando seu grampeador - cogitava.
Para o médico não era possível decifrar na expressão facial de Pedro se ele atinava para a seriedade da situação, para a gravidade de seu diagnóstico ou se estava em estado de choque. O estranhamento do médico só aumentou quando viu seu paciente se levantar da cadeira e sair da sala cumprimentando-o, desejando-lhe um bom dia e um 'até breve'. Diante disso, Dr. Renato, experiente neurologista, não teve dúvidas, de fato seu paciente estava em estado de choque. Pensou em perguntar se Pedro estava acompanhado, mas hesitou...
Pedro não tinha parentes na cidade e há pelo menos dez anos não entrava em contato com sua família. O motivo não se sabe, mas tudo indica que tenha simplesmente se afastado e deixado de se comunicar. Logo o tempo e a distância tornaram-se eles mesmos um constrangedor empecilho. A partir daí por bloqueio ou vergonha passou a evitar o contato. Razão pela qual os laços fraternos foram se esgarçando como um velho tecido. Tanto que sequer sabia dizer se seus pais estavam vivos ou mortos. Ao que parece essas coisas de família não lhe interessavam mais, entediavam-no mesmo.
No dia seguinte, o som estridente de seu despertador soou às cinco da manhã, era então quarta-feira. Não costumava tomar banho antes de sair para trabalhar. Usava lenços umedecidos. Apesar de ter um moderno e agradável chuveiro em seu banheiro, seguiu a mesma rotina de sempre. Levantou-se. Sempre pelo lado direito da cama. Enfiou os pés nas sandálias. Desligou o alarme. Deu a volta na cama e apanhou seu relógio de pulso que deixava na estante, sempre do lado oposto. Não se espreguiçou, apenas rumou para o banheiro. Parou diante do espelho e se olhou por uns segundos, como se houvesse notado alguma coisa estranha, mas, nada. Começou sua sessão de lenços umedecidos nas axilas, no pescoço, nas genitálias. Em seguida jogou um pouco de água no rosto. Fez um gargarejo. Cuspiu na pia. Olhou de um lado para o outro o rosto, "a barba ainda esta boa". Vestiu-se andando. Não costumava presta atenção em detalhes, a camisa tinha dois vincos na manga, a calça também.
Aproxima-se do horário em que apanha o 907, no ponto em frente ao seu edifício. "Se perder o 907, vou ter que pegar pelo menos duas conduções até o trabalho; não quero correr o risco de me atrasar". Tomou um gole de café amanhecido e frio e saiu. 
Apesar de pegar o mesmo motorista e o mesmo cobrador há quase dez anos, não costuma falar com ninguém e, quando falava, balbucia somente monossílabos, vez ou outra dissílabos, se necessário. Com os outros passageiros, nem pensar, preferia preencher as palavras cruzadas que baixara num aplicativo do celular. No ponto próximo a Paulista desceu de cabeça baixa e andou mais duas quadras, atravessando por uma praça com belos jardins. Nem conseguira perceber que apesar do clima as azaleias floresciam. Entra no edifício Montreal, o elevador é lento, cheio e o ar condicionado está quebrado, _ tanto faz! São pelo menos cinco paradas até chegar ao seu piso, mesmo assim, insere seu cartão exatamente no horário.
Sua mesa fica distante de qualquer janela, em todo caso a mais próxima dá para a parede do prédio vizinho, é cinza o dia todo! Em sua baia descobre que de fato alguém usou seu grampeador, "provavelmente Eduardo, o gordo, está sem grampos"! Olha meio emburrado para os lados e da início a sua rotina. Basicamente, carimbos, registros eletrônicos e escaneamento de documentos pertinentes a contratos de seguros. A julgar pelo volume de documentos em sua mesa o dia ia ser longo. Dia comum, maçante. Apesar da insatisfação e da rotina, vendeu todas suas férias nos últimos anos. Quem sabe venderia a deste ano também!?
Aproxima-se a hora do almoço, seu colega de baia convida-o para almoçar: - hoje tem feijoada no restaurante do primeiro andar! - Não, obrigado, pedi uma marmita. A marmita barata já está quase fria, o alface dentro da comida já está murcho, e o tomate por cima da comida dá ao arroz um desagradável sabor azedo. Come tudo na sala do refeitório da empresa. Tem pressa, "há muito o que fazer"!
O retorno rápido ao trabalho lhe causa alguma náusea, mas nada que alguns analgésicos não resolvam. Desde há algum tempo passou a tomar analgésicos por qualquer motivo. Durante o resto da tarde, chega a ouvir o ruído da chuva que nos últimos dias tem caído no meio da tarde. O clima varia tanto nesta época do ano em São Paulo que se tem a impressão de ter vivido pelo menos três estações em único dia. Calor ao meio dia, chuva no meio da tarde e frio ao entardecer. O tempo escoa lento, porém implacável. Mas, a monotona rotina o detém entre carimbos, transcrições e digitações.
No fim do expediente algo de inusitado acontece, os colegas o convidam para um happy hour, - Pedro, hoje vamos tomar uma cerveja e ver jogo no bar lá da praça! Quer vir conosco? Diante do embaraçoso convite recusa. - Não. Tenho umas coisas para resolver lá em casa. - Ok!
No fim da tarde, um minuto de distração sabe-se lá com o que o atrasa, mas, enfim, consegue pegar seu ônibus, que, no entanto, quebra a cerca de três quadras de sua casa. Sem alternativa, decide seguir o resto do percurso a pé. O dia ainda estava claro e a chuva do meio da tarde havia deixado o céu azul e límpido como nunca para este horário. O frescor do ocaso favorecia e as pessoas se juntavam nos bares e nas mesas dá calçada para o happy hour. Não prestou muito atenção, como sempre baixou a cabeça a apertou o passo rumo ao seu destino.
Na porta do apartamento sentiu algo estranho. Cismou por uns segundos antes de enfiar a chave na fechadura, ponderou..., parecia considerar algo, mas mesmo assim, num movimento quase que mecânico, quase que automático, virou a chave. Tonteou e caiu ali mesmo. Só sobre a soleira...
Encontraram-no assim mesmo no dia seguinte, metade do corpo para dentro do apartamento e as pernas para fora, meio que encolhido numa posição fetal. Comentavam no dia seguinte durante seu velório.
Após o enterro os colegas de trabalho resolveram tomar 'uma' num boteco ali mesmo, próximo ao cemitério. Foi Eduardo, o gordo, herdeiro oficial das miudezas de escritório de Pedro, quem puxou o assunto...
- O que vocês fariam se soubessem que tinham somente mais um dia de vida?




[1] Muito embora, os últimos três balancetes trimestrais da empresa tivessem apresentado apenas índices positivos.

segunda-feira, 27 de março de 2017

FOLHETIM 02 - SÚBITA REPENTINA

DA IDA À CONVENÇÃO

OU

UM PAPO DESCONFORTÁVEL EM UMA VIAGEM DE 09 HORAS

Nos dias que ficara na cidade interiorana seguira a cartilha como um digno príncipe em treinamento. Fora uma viagem lenta, em companhia de Íris, vizinha de baia do escritório, chefe do setor de relações públicas da empresa, e Nestor, velho fumante, rabugento e um dos donos da maior empresa de arquitetura e construção civil de São Paulo, a Agamedes S/A. 
Chris ficara o tempo todo no banco de trás de um carro automático, grande, confortável e com ar condicionado muito gelado, que o fazia esquecer o calor externo do verão de novembro. Vez ou outra, o conforto do ambiente refrigerado era incomodado por aquele Nestor que, guiando os empregos dos dois passageiros e também o próprio carro, sentia-se no direito de comandar a falência dos pulmões alheios, abrindo a janela e fumando um cigarro. Em menos de meia hora, outro. E depois outro. 
Para romper o silêncio e mostrar-se determinada a animar quaisquer tipos de situações sociais, até mesmo uma viagem de nove horas de carro com um chefe que conseguia extrair de um sim, um não, Íris puxava assuntos perdidos, desde o ambiente até a rotina diária dos companheiros de trabalho, com a habilidade de promover, naquele momento, não uma viagem para um evento de trabalho, mas um trabalho que era viajar para um evento de trabalho. A cada pergunta, Chris sentia-se apertado no banco de trás, envolvido em inúmeras resoluções possíveis que não vinham a colocá-lo em alguma enrascada, quer com o velho, quer com Íris.
- Então, Chris, como estão as coisas na área de projetos?
E ele respondia com sentenças que não definiam nem um estado de extremo stress, nem de um relaxamento completo. 
- E a galera lá do projetos, dizem que eles são super animados! São muito envolvidos com os outros departamentos!
E acabava que aquelas perguntas lhe stressavam mais do que realizar os projetos isolado numa baia, seguindo o protocolo de uma rotina repetitiva que era ajustar detalhes matemáticos de um desenho digital numa tela de computador.  Não era bom com as palavras. Não tinha o traquejo nem o estudo daquela garota esperta. Mas enxergou uma brecha que poderia lhe tirar daquele rumo de prosa e talvez despertasse ao velho a vontade de abrir a boca:
- Então, quais são os planos? Eu, bem, até agora, não entendi muito bem porque tenho que acompanhá-los nessa viagem... Não que eu não desejo estar aqui, não é isso... Só que eu acho que sou mais útil no escritório... Bem, é... Não que...
- Cala a boca, diabo! - conseguira quebrar o silêncio do velho. - é um inferno ficar ouvindo esses seus mi mi mis. Você não contou nada pra ele, não?
Íris sorriu e como uma gatuna das palavras, soube lidar com aquele climão com muita sapiência:
- Em uma viagem de nove horas, a gente preparava ele melhor do que deixá-lo preocupado a semana inteira. Ele é do projeto, vai que erra um número e PUF! Lá se vai um edifício abaixo... Mata pessoas... Sabe como é?
- Você tem toda razão. - o velho não abria muito bem o olho. Tinha sombrancelhas grossas e expressão amarrada que deixava os olhos apertados, quase invisíveis. Na primeira hora, causou certo receio tanto em Íris como em Chris, mas as curvas, os faróis e o limite de velocidade eram respeitados com maestria. Ou era um piloto automático, ou algum tipo de sexto sentido do velho. - Esse imbecil ia esquecer tudo mesmo. - Chris não entendia aquilo como uma ofensa. Nunca. - Você é neto do Trofônio Agamedes, o homem que dá nome a nossa empresa. Seu avô, junto do irmão mais velho, foram os maiores arquitetos de sua geração. Construíram edifícios de grande destaque em São Paulo e em outros Estados do país. 
Chris não entendeu os motivos de relembrar uma história conhecida. Mesmo a empresa que trabalhava levar o nome do avô, ele não tinha parte alguma na empresa, pois o avô morrera pobre, passara a pobreza para os filhos e só os netos começaram a encher um pouco os bolsos. No fim da vida, seu avô assumira que todas as suas construções foram realizadas com matéria-prima roubada e doou toda sua riqueza, com exceção da casa que morava com sua esposa, para melhorias sociais de toda região que explorara ilicitamente. Já não tinha mais tempo de vida para ser preso e morrera meses depois do depoimento. A família foi parar nas mídias nacionais e internacionais. Todos acabaram esquecendo do evento, até os arquitetos. Chris nunca sofrera para arrumar empregos na área de arquitetura e ninguém nunca comentara sobre o império de seu avô. Até entrar na Agamedes S/A. Lá, todos sabiam da história do velho, que era lembrada anualmente nas festas de fim de ano.
- Não entendo...
- Então, garoto, te trouxemos para que você sorria e repita a todos as histórias de seu avô. Para quem conversar com você, com exceção de mim e a bonequinha aqui, você é uma revelação naquela empresa. Uma revelação, porque herdou, da porra do seu avô, o conhecimento de um velho safo! 

Íris sorriu e Chris sentiu-se amiudado no banco traseiro. Era o neto que menos se interessara pelos passados familiares, mas que tivera mais contato com seu avô.

sábado, 18 de março de 2017

FOLHETIM 01 - SÚBITA REPENTINA


- Uma cerveja por favor. Para acabar com o horror que é ser Atlas. 



O telefone do quarto tocou. 
- Senhor, são oito e cinquenta.
Um pouco tangido pela confusão de não saber as dimensões de onde estava deitado, agradeceu num ronco silencioso, devido a dificuldade de tornar verbo as sentenças que pensava. As primeiras palavras do dia sempre lhe saíam incompreensíveis. Sentiu na cabeça o peso de dois mundos e não via a hora de arrumar as malas e seguir estrada. Participar de eventos empresariais sempre fora uma grande chatice quando não se tinha vocação para aquilo que fazia. Fingir sorrisos, esboçar reações, entender caretas, falar na hora exata, o verbo que se esperava, na aspiração que se cartilhava. Essas coisas todas lhe confundiam em algum momento. Seu forte sempre fora o manuseio artístico de miniaturas plásticas. A criação de humanos e animais inanimados. De bonequinhos à semelhança de criaturas reais, vivas, que perambulavam seu mundo. As pessoas chamavam de brinquedinhos bizarros, piadinhas de mal-gosto, o que ele afirmava, internamente, arte! A nova arte! A viagem fora essencial para entrar de cabeça nesse novo universo que começava a ganhar legitimidade social.
Tropeçara duas ou três vezes no receituário de conduta do outro mundo que habitava e tinha de enfrentar pelo menos aquela semana inteira. Vacilou ao pular algumas etapas daquela maldita carta de príncipe maquiavélica estabelecida na cabeça de todo homem de negócios em produção. Aquelas etapas do como se comportar fora de seu lar, numa cidade distante daquela que sempre vivera. Em meio a chefes, clientes e uísque de refil, viu-se comprometido pela disposição social de testar seus limites etílicos e pela necessidade institucional de fazê-lo sem ultrapassar os limites naturais do corpo. Sentindo-se numa batalha de reinados, foi bobo da corte, quando deveria exercer a simples função de um coadjuvante de acontecimentos reais. Acostumado com a cerveja, teve de consumir aquela tortura que lhe torrava a garganta e pouco a pouco o tornava um debilóide IN na relação social com aqueles homens dessemelhantes. O uísque, que todos enchiam o peito para dizer que tomavam porque descia bem, lhe causara um rombo espiritual e fonético que ele achou irreparável na noite passada. Após dois copos, sentia sua língua mole e já não conseguia distinguir, fisicamente, enquanto falante e ouvinte, bilabiais, fricativas, oclusivas, surdas e sonoras. Nem tantas outras. Impulsionado por um santo ruim, pedia mais copos, como se conseguisse ser capaz de controlar aquelas sensações pelo agrado do vizinho que lhe empurrava sempre um a mais. Mais um, mais um. 
- Vira!
E o retardado virava! 
-Vira!
E virava. E ria. E craseava todas as palavras terminadas com vogais, semelhantes ou não, inventando, na tentativa de um português formal, uma língua germânica com duas ou três entonações fonéticas por palavra. 
Eis que, para o desafortunado inexperiente, o limite orgânico é atingido das maneiras mais cômicas em lugares mais inapropriados. Falando com um dos clientes, que encontrava-se em condições brandas de alcoolismo, sentiu o mundo retornando em sua garganta. A pressão de todos os seus órgãos em manifesto.
- Não aguentamos mais, seu imbecil!

Do estômago ao esôfago, sentindo um breve e rápido desprazer anal, vomitou. Fora, talvez, o queijo. O queijo, o líder da rebelião, ou o bucha de canhão que vem a frente, ordenado pelo General Uísque. Nunca gorfou no colo de um homem antes. Muito menos um homem tão importante como o cliente de seu chefe. Também nunca desmaiou após um vômito. Muito menos um desmaio de vinte segundos, que só lhe custara o desprazer de sentir o cheiro de seu vômito misturado ao tecido do terno importado de seu cliente estrangeiro. Aquele conjunto todo, fez com que ele sentisse ainda mais ânsia e, tomado pelo desconforto físico, sentou muxoxo no lugar de qualquer um e recebeu a atenção de pessoas, das mais desconhecidas, que lhe ofereceram água e outras coisas mais. 

domingo, 12 de março de 2017

O MENINO, O VELHO E A BICICLETA.

Todos os dias quando era criança ele pegava carona na bicicleta daquele velho. 
Sem dúvidas era muito gostoso vê-lo sentir o vento em seus cabelos. 
É incrível, quando somos crianças como coisas aparentemente banais, aparentemente simples, aparentemente singelas, nos deixavam sempre muitíssimo felizes (pegar caronas de bicicleta).
_ Suponho que sonhava ele próprio percorrendo as ruas do bairro com sua pequena bicicleta.
_ Desconfio que imaginava todo o trajeto em sua pequena cabeça, creio que já fosse capaz de recriar em sua mente todo o percurso que costumeiramente faziam.
Enquanto seus sonhos de meninice não se realizavam, guardava e aguardava com carinho os passeios pelo bairro.
Quando se é criança todos os dias são mais belos, mais coloridos, são multicoloridos os dias...
E, a repetição de um trajeto que para muitos poderia parecer enfadonho, para seus olhos curiosos, “heraclitianos” olhos de criança, todos os dias eram um novo dia, um novo mundo.

Certo dia então, como de costume, sentou-se a beira do portão para aguardar ansiosamente a chegada do velho....
Sempre ansioso, sempre receoso...
Para descontrair apanhava pequenos seixos pelo chão e atirava as pequenas pedras na rua, nas coisas que via próximo como se contasse o tempo...
Mas, neste dia sua espera se prolongou, se estendeu demais...
O velho não apareceu, 
Por dias a fio ele esperou
Mas o velho não mais passou.
Em seu pequeno semblante era possível perceber um pesar profundo.
Parecia claro que pela primeira vez em sua breve existência um sentimento de vazio absurdo, abismal lhe tomava peito. 
_ Um terrível vazio no peito!
_ Pude notar que por noites a fio sonhou com seus divertidos passeios. Durante dias imaginou, chegou inclusive a criar mapas de seus costumeiros trajetos, - é bem provável que tenha sonhado/pensado com novos planos para seus passeios...
Passado algum tempo, os dias, sentava-se em frente ao portão e aguardava, agora; no entanto, na certeza da incerteza.
Até que tomou coragem, levantou-se, não olhou para traz, nem pediu licença, sequer titubeou no primeiro passo, partiu...
Pois-se a caminhar, e refez a pé todo aquele percurso que faziam juntos de bicicleta. Olhou os mesmos lugares, as mesmas pessoas da rotina de seus passeios passados.
Numa esquina, a distancia, avistou numa banca dois senhores que os viam e os cumprimentavam todos os dias. Reparou que um dos senhores olhou para o relógio e olhou para traz, como quem aguardasse alguém que ainda viria a passar. Parou por um momento, esperou, olhou... Nada!
No caminho de volta nem lhe pareceu nem apareceu nada de novo. Teria seu olhar empobrecido? Sua vista ficado dura como o asfalto!?
Ao chegar em casa olhou fixamente em meus olhos com uma profundidade inquietante - angustiante, – parecia meditar consigo –, que estaria ele pensando? Deveria eu ainda lhe dizer algo sobre o velho? Que não viria hoje e nem volverá jamais? É tempo de falar das "durezas da vida"?
Quando ele de súbito exclamou/suspirou: 
"Ah!!! Mamãe, então é assim!? A gente vem para este mundo olha, e um dia simplesmente desaparece!?"

domingo, 9 de outubro de 2016

A IRONIA DE UM NORDESTE LIBERAL



O comentário abaixo havia sido redigido numa rede social em função dos resultados das eleições de 2014.


Hoje, como se sabe 2016, os resultados daquela eleição não foram respeitados em nosso país, houve um golpe de Estado protagonizado pelo legislativo em anuência do sistema judiciário. Alias, o projeto do golpe, penso eu, foi gestacionado no interior do próprio sistema judiciário.

Donde se pode deduzir que o neoliberalismo sequer respeita o liberalismo. Mais resumidamente, é golpe mesmo.

Ora, se admitirmos que os nordestinos estão pensando com o estômago quando votam neste ou naquele partido, então temos necessariamente que assumir que o que está em pauta é justamente aquilo que caracteriza o fundamento basilar do pensamento neoliberal, do livre mercado, isto é, o "individualismo". Quem pensa com o estômago realiza na forma mais bruta, mais radical o pensamento individualista - caracterizado pela lei da sobrevivência característica central, chave do capitalismo moderno.
Consequentemente, a crítica à essa atitude jamais, em hipótese alguma, poderia admitir o estatuto da "alienação". Primeiro, por que há a questão da incomensurabilidade do conceito, caro a teoria marxista - ao materialismo histórico - que comporta em seu bojo conceitos ou entidades conceituais negadas e, em certos aspectos, contraditadas pelo liberalismo da escola neoclássica de economia.
Segundo, e ainda sob o mesmo aspecto, alegar a alienação ou qualquer outro preconceito de caráter metafísico para justificar a discordância com essa posição - o voto neste ou naquele partido - implicaria em admitir que há uma teoria econômica que define as condições da realidade de maneira definitiva, isto é, seria o mesmo que afirmar que existe uma, e somente uma verdade que descreve o espectro econômico em qualquer sociedade em todos os tempos, negando, portanto a história ou as circunstanciais históricas - o que caracterizaria obviamente uma posição "dogmática".
Deste modo, se acolhermos que a disputa política constitui somente uma das possíveis empresas na realidade econômica mais global, temos que considerar que o que esta em jogo é justamente a "lei da oferta e da procura", onde o que determina o valor do produto não é o trabalho empregado para realiza-lo (nem as propagandas deste ou daquele governo, nem os programas sociais etc.), mas, como é amplamente admitido pela corrente econômica neoclássica, o nível de satisfação dos indivíduos tomados isoladamente.
Assim sendo, para concluir momentaneamente essa argumentação, o que vemos acontecer nestas eleições é exatamente o exercício da liberdade de escolha preconizado e amplamente reivindicado pelo pensamento NEOLIBERAL.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Lembrança sobre a questão da soberania popular na democracia brasileira

Lembrança sobre a questão da soberania popular na democracia brasileira
A jovem república presidencialista brasileira, considerando a entrada em vigor da Constituição cidadã, nasceu com um pequeno vício, bastante comum, aliás, no Ocidente; a saber, a restrição ao possível exercício do poder político pelo povo, assumido formalmente como protagonista na Carta Magna.
Os legisladores, que representam interesses de grupos econômicos de diversos setores (vale manifestar o aparente óbvio a desavisados), fizeram grande esforço para apresentar uma Carta Magna à altura da efeméride - "fim" de duas décadas de ditadura e "nova república" - e intelectuais e imprensa oficiais até hoje não escapam do gênero epidítico quando se referem ao texto maior do arcabouço jurídico brasileiro. O esforço foi tão estupendo, e reconhecido, que muitos parlamentares ocupam uma cadeira cativa até hoje no legislativo federal. Mas, mesmo com tanto afinco, não conseguiram promover, ao mesmo na letra, o que soa auspicioso no parágrafo único do primeiro artigo: o exercício direto do poder político; ao contrário, restringiram ao máximo tal possibilidade. Ficou o povo com o louvado direito ao voto a cada quatro anos (!) e com os menos apreciados e instigados plebiscito, referendo e iniciativa popular.

Quando se trata de exercício do poder político, não há equilíbrio entre o povo e os delegados dos três poderes. Fica uma minoria eivada de privilégios - abonados pelos ricos - a defender interesses privados, enquanto ao povo resta apenas o dever de obediência a leis, que são estranhas ao interesse popular, sobretudo essa que define e limita seu poder político a reconduzir aos postos públicos aqueles que vão manter os direitos como privilégios.

domingo, 22 de novembro de 2015

Notas sobre obstáculos epistemológicos


Creio que provavelmente uma das boas contribuições que o filósofo Gaston Bachelard legou para a posteridade filosófica tenha sido seu conceito de “obstáculo epistemológico”. Porém, quando se busca apreender na obra epistemológica do filósofo francês o sentido dado pelo mesmo ao conceito de obstáculo epistemológico, a primeira impressão é, para a maior parte dos leitores, que não se trata de uma; mas de várias definições para o mesmo conceito. Entretanto, arriscamos a afirmar que muito embora, sob certo aspecto, o filósofo faça realmente variar "os conceitos", de tal sorte que não se possa eliminar de maneira definitiva esta impressão, muito provavelmente ela é um tanto apressada.
Estas "supostas" variações podem ser equivocadamente extraídas sobretudo de uma consulta rápida e superficial a algumas de suas obras; porém, uma análise mais detida pode revelar justamente o contrário, isto é, seu verdadeiro intento.
É o que se pode inferir daquelas obras onde o epistemólogo abordado o tema de maneira especifica, como, por exemplo, na obra A formação do espirito científico, de 1938. Porém, seu desapego a fixidez, a rigidez dos conceitos constitui justamente o aspecto intrinsecamente polêmico, que marca de uma obra que tem no conflito, na desconstrução e na ressignificação dos conceitos sua característica fundamental.

Ora, se como define o filósofo “uma ideia clara dentro de um domínio de investigações pode deixar de iluminar em outro domínio” (BACHELARD. El compromiso), a ressignificação dos conceitos deve caracterizar o trabalho essencial e primeiro do exercício filosófico.
Por esta razão, quando o sujeito ingênuo presume um conhecimento adquirido, imagina-o muitas vezes como um edifício rigidamente construído, cuja estrutura jamais poderá ser abalada. Pensa ter chegado a um principio da razão, semelhante àquele principio cartesiano do cogito. Dentro da lógica epistemológica de Bachelard, esta ideia é a um só tempo sedutora e perigosa.
Perigosa, sobretudo para o homem que se pretende contemporâneo da ciência.
Aqui esta a contribuição e a razão da índole polêmica da filosofia cientifica de Gaston Bachelard. Para o filósofo cada novo conhecimento na ciência altera toda a estrutura da ciência o que exige por sua vez uma ressignificação dos conceitos, principalmente, no campo da filosofia da ciência, suponde que esta disciplina pretenda manter-se em dialogo constante com o conhecimento científico de seu tempo.

É interessante observar que esta proposição feita primeiramente por um filósofo da ciência no início do século XX, tenha consonância com os avanços científicos atingidos por um ramo inteiramente novo do conhecimento e da ciência  que é a neurociência.
Segundo descobertas recentes da neurociência cada novo conhecimento adquirido pelo sujeito, afeta de forma estrutural sua mente, ou seja, sua composição neuronal. Basicamente, é como se a entrada de um novo elemento (conhecimento, informação ou dado) levasse a uma completa reorganização da estrutura cognitiva como um todo - esta característica recebe o nome de ‘plasticidade neural e cognitiva’.
Há nessa descoberta a desconstrução definitiva da imagem do conhecimento como edifício. A partir daqui o conhecimento ganha, como postulava Bachelard, uma forma móvel, uma estrutura complexa e dinâmica, sujeita a constantes ressignificações. Conforme o filósofo: “O conhecimento científico se constrói em reconstrução, isto é, na medida em que destrói aquele conhecimento já edificado.” (BACHELARD, Le nouvel esprit scientifique)

Neste sentido, o conservadorismo é identificado não somente como uma categoria perniciosa em suas vinculações culturais, mas principalmente em suas vinculações epistemológicas. Numa de suas denúncias o filósofo afirma que conservadorismo e avareza são categorias solidarias que constituem verdadeiros obstáculos epistemológicos, como se pode verificar no trecho a seguir:
“Mesmo na mente lúcida, há zonas obscuras, cavernas onde ainda vivem sombras. Mesmo no novo homem, permanecem vestígios do homem velho. Em nós, o século XVIII prossegue sua vida latente; infelizmente, pode até voltar. Não vemos nisso, como Meyerson, uma prova da permanência e da fixidez da razão humana, mas antes uma prova da sonolência do saber, prova da avareza do homem erudito que vive ruminando o conhecimento adquirido, a mesma cultura, e que se torna, como todo avarento, vitima do ouro acariciado.” (BACHELARD, A formação.)
Deste modo, podemos concluir por hora que a aparente falta de unidade, a aparente indefinição dos conceitos em Bachelard tem um proposito absolutamente claro, indicar um caminho para uma epistemologia parceira da ciência de seu tempo. E portanto, sua complexa definição do conceito de obstáculo epistemológico pretende atender uma exigência metodológica sua – harmonizando a definição ao contexto de construção ou descoberta do conhecimento científico.

1934. Lê nouvel esprit scientifique. Paris: PUF. (Tradução brasileira de Joaquim José Moura ...(et al.). – 2ª ed. – São Paulo : Abril Cultural, 1984. Col. Os Pensadores)
1938. La formation de lésprit scientifique: contribution  à une prychanalyse de la connaissanceobjective. Paris: Vrin. (Tradução brasileira de Estela dos Santos Abreu. – Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.) 

1972. L’engagement rationaliste. Coletânea póstuma de textos, prefácio de G. Canguilhem, PUF. (Tradução espanhola de Hugo Beccacece. – Mexico: Siglo Veintiuno, 1985.)

domingo, 30 de agosto de 2015

Ensaio sobre o acaso ou Não existe acaso?

O acaso segundo os supersticiosos (Parte I)

Tenho uma amiga e colega de trabalho que não acredita em “acaso”. Segundo sua visão mística do mundo, todos os fatos estão misteriosamente “conectados”. Até aqui sem problemas. Porque, o misticismo e a superstição têm sido uma marca permanente da cultura popular ao longo dos séculos. E sobre tudo, constitui uma característica típica do senso comum.
O que causa estranhamento é imaginar como ela consegue conciliar essa visão de mundo com sua formação de cientista (social)? Como é possível afirmar a validade de uma explicação científica dos fatos ou fenômenos sociais, admitindo ao mesmo tempo haver conexões ocultas e transcendentais que escapam a capacidade de penetração e abstração dos mais perspicazes dos sociólogos? Eles não são infalíveis sabemos; porém, esta constatação não nos permite invalidar todo seu arcabouço teórico. Ao passo que admitir que existam conexões ‘ocultas’ ou sobrenaturais que expliquem ou determinem o funcionamento da natureza invalidaria qualquer proposição teórica ou científica.
Esta contradição opõe de forma clara e irremediável estas duas visões de mundo, a científica e a religiosa ou supersticiosa. Trocando em miúdos, temos de um lado, uma visão de mundo que nega de forma peremptória a existência do acaso (ou ao menos em certas ocasiões), admitindo haver conexões ocultas entre fenômenos aparentemente desconexos, mas, sobretudo, afirmando que o elo entre fenômenos que coincidem encontram-se não no plano da explicação material da realidade; mas num plano imaterial, melhor dizendo, num plano espiritual, sobrenatural da realidade.
Do outro lado, teríamos que aceitar que parecesse, no mínimo, estranho aos olhos e soasse ao menos absurdo aos ouvidos de um Comte, de um Max Weber, de um Durkheim, e, sobretudo ao intelecto ardiloso do velho Marx a admissão da existência de uma "força" sobrenatural explicando e determinando o funcionamento dos fenômenos naturais. Mesmo admitindo que, para algum destes ‘cientistas sociais’, houvesse realmente alguma conexão entre eventos aparentemente distintos da realidade social, ou seja, “que não houvesse acaso”, tais conexões seriam investigadas na "realidade" e expressas em suas elaborações teóricas por meio de abstrações formais e conceitos que teriam como objetivo desvelar o caráter ‘positivo’ do qual, em última instância seriam compostos a incógnita que conecta estes mesmos fenômenos. A exemplo, conceitos como os de “fato social”, “fenômeno social”, “condições materiais” etc., se assentam sobre princípios, causas ou leis que expressam, como dito, alguma conexão entre fenômenos dispares, e, emergem duma investigação radical acerca dos elos que constituem positivamente a tessitura social.
Bem, quando lá acima nos referimos ao termo “mística” não quisemos dizê-lo num sentido clássico, tal como a mística de um Mestre Eckhart. Consequentemente, podemos inferir que minha amiga é mística no sentido mais popular do termo. Basicamente, ela é uma daquelas pessoas que possui pedras que, segundo sua visão supersticiosa do mundo, concentram energias “cósmicas”, uma pessoa daquelas que recita mantras, que constrói mandalas, que acredita em feitiços, correntes de pensamento positivo e coisas afins. É, enfim, uma daquelas pessoas que acredita que todas as coisas e seres estão repletos de magia e poderes sobrenaturais. É mormente uma pessoa supersticiosa. Este é o sentido ao qual me referi, à mística. Uma mistica, digamos, “bem popular”.
Pode parecer leviano comparar assim essas concepções místicas; mas, de fato, se observarmos a concepção mística popular, a superstição, verificaremos que ela soa muito mais caótica, aja vista padecer de qualquer elaboração ou organização sistemática que àquela mística que aqui denominamos de clássica. É praticamente impossível que este fato passe despercebido aos olhos de um cientista social, por exemplo, uma vez que torna evidente seu caráter desarticulado e precário. No entanto, aos olhos dos adeptos desta dita “mística popular” esta precariedade é somente aparente, pois, segundo alegam, na verdade sob este manto de precariedade e desarticulação se oculta uma complexidade tão profunda que as mentes ‘quadradas’ e ‘formatadas’ dos estudiosos são “incapazes de alcançar”. Neste sentido, argumentam ser coisa para iniciados. Outros dizem - com certo ar de superioridade, esta mística complexa e popular se aproxima da física quântica na medida em que demonstra-se profundamente quase que incognoscível! Quem diria física quântica....
Bem, voltando ao “acaso”. No sentido em que afirma minha amiga, neste sentido, se você for a um lugar e ‘trombar’ com uma pessoa a quem muito estima e que há anos não via, “isto”, este evento certamente possui uma explicação transcendental, uma vez que não acontece por acaso. Segundo elas, haveria uma força oculta, conspirando para que esse encontro acorresse. Neste mesmo sentido, podemos considerar que se você caminha descontraído por uma calçada e, de repente, numa curva, numa esquina, uma telha se desloca do telhado de uma casa e cai sobre sua cabeça, isso não ocorre por acaso. Muito embora você não tivesse nenhuma ligação ou estivesse pensando na telha ou coisa parecida. Este fato que podemos considerar um acidente trágico, não acontece, segundo esta concepção ‘mística e complexa’, "por acaso”. Aconteceu por que tinha que acontecer! É como se sua trajetória e a da telha tivessem sido pré-estabelecidas, pré-determidas desde há muito tempo por forças estranhas; por forças alheias a sua vontade e ocultas a sua consciência. O que neste contexto místico e complexo faz bastante sentido, uma vez que as coisas no mundo estão absolutamente emaranhadas nas redes de um tecido do qual somente os místicos, os iniciados fazem alguma ideia.
Buscando desemaranhar esta concepção de mundo, esta concepção de realidade, poderíamos justapor o conceito de “coincidência” presente no não tão popular dicionário Houaiss. Neste dicionário coincidência significa: “ato ou efeito de coincidir; igualdade, identidade de duas ou mais coisas; ocupação do mesmo espaço; justaposição; realização simultânea de dois ou mais acontecimentos; simultaneidade; ocorrência de eventos que, por acaso, se dão ao mesmo tempo e que parecem ter alguma conexão entre si; concorrência de coisas para um mesmo fim”.
Ora, neste sentido, o mundo esta evidentemente repleto de coincidências. Por exemplo, agora eu me encontro diante do computador escrevendo; pode parecer ridículo, mas é uma coincidência no mesmo sentido que é asseverado na definição do Houaiss.
Sendo assim, podemos verificar que ocorre o tempo inteiro um sem número de coincidências às quais não damos a menor atenção, em contraposição há um número absurdamente pequeno, diria eu quase escasso, de coincidências que, em circunstancias particulares, nos chamam atenção, somente a estas chamamos de "não acasos" e atribuímos significado especial. Assim, percebe-se aqui que é absolutamente arbitrário os casos em que atribuímos significado às coincidências. Basicamente, é o sujeito quem decide que ou quais coincidências ele chamará de "não-acasos”.
Bem, o ser humano vive num universo que é extremamente simbólico. Aliás, como bem verifica Levi-Strauss, estamos imersos numa estrutura tal que não é possível dissociar o fundo cultural e social do individuo. Ousaria dizer que na concepção estruturalista, o fundo é “no fundo” o individuo. Fato que justificaria nossa busca quase que incansável por sentido, por um sinal em tudo o quanto vivenciamos. Sob este aspecto, não é exagero afirmar que o homem é por natureza um ser de símbolos, um animal simbólico, cujas ações mais fundamentais consiste em atribuir símbolos, signos e significados às coisas. É sua condição subjacente, àquilo que ousamos denominar de “natureza humana” (num sentido cultural)... 

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Opinião pública, censura e formação da cidadania


MARCELO CAETANO DA SILVA

Opinião pública, censura e formação da cidadania


Dissertação final da disciplina
FLF5125. Ética e Filosofia
Ministrada pelo Professor Dr. Milton Meira do Nascimento
  
Junho/2015




Opinião pública, censura e formação da cidadania

"A opinião pública, eis o único juiz competente das opiniões particulares, o único censor legítimo dos seus escritos. Se ela os aprovar, com que direito vocês, homens do poder, poderão condená-los?... publicar livremente seus pensamentos... este é o mais sagrado dos deveres que, em relação a outros homens, pode cumprir aquele que é dotado dos talentos necessários para esclarecê-los". ROBESPIERRE, Maximilien. Discours sur la liberté de la Presse, sessão de 11/05/1791. Éditions Hemera, Tomo V, p. 47. Apud NASCIMENTO, p. 73.


Introdução


Este texto faz uma abordagem da ideia de opinião pública presente em dois momentos distintos histórica e geograficamente, permitindo compará-los e perceber aspectos em comum. O que torna possível a analogia entre a Revolução Francesa e o golpe de Estado perpetrado no Brasil em 1964, no que tange à ideia em causa, talvez seja o fato da opinião pública operar constantemente de forma negativa e positiva, ora restringindo e moldando a liberdade individual, ora atuando sobre a capacidade de julgar do povo por intermédio dos canais de comunicação disponíveis.
No contexto da Revolução Francesa, a opinião pública é abordada por um estudo da obra Opinião Pública e Revolução, aqui adotado como referencial teórico, que trata da assimilação do pensamento "de um" Rousseau por dois revolucionários fundadores de uma organização política muito atuante, o Círculo Social, ao mesmo tempo em que indica como viam o papel do intelectual como um educador, agente de transformação, vanguarda. Seguindo o espírito da ilustração, o intelectual será definido por sua aversão ao preconceito e compromisso com a verdade, adotada como um referencial da política; esse seria o caminho para contribuir à formação da soberania popular, entendida como vigilante do exercício do poder político. Claro que o uso da linguagem pelo intelectual engajado será colocado em questão.
Na história da filosofia, a opinião tanto aparece no campo da epistemologia, resultando na cristalização de conhecimento ou preconceito, como no campo da ética, vinculada à formação do costume dos povos. Pensada como expressão do costume de um povo, decorrente de um longo processo de maturação, a opinião pública pode ser um meio de degradação ou de regeneração da humanidade. O aspecto negativo da opinião pública está ligado ao vício do julgamento das aparências, que deturpam o sentido do ser verdadeiro, típico da vida em sociedade. O aspecto positivo, compreende a emancipação do ser humano como dependente da prioridade dada ao que importa à sobrevivência e da rejeição à preferência da moda que escraviza. Preservar os costumes que caracterizam o povo e ao mesmo tempo depurá-los, eis a tarefa difícil do intelectual pedagogo que deve ter aversão ao proselitismo.
Uma das grandes lições do século XVIII indicada pelo Círculo Social era a importância da defesa da liberdade de expressão, caminho salutar para se combater o preconceito e contribuir ao esclarecimento público, e teria sido ainda maior, não fosse a adoção de uma verdade predeterminada, que colocou em risco a reflexão, a crítica e o debate aberto à possibilidade do consenso com outros clubes.  A bandeira do homem de letras na era das luzes era "abaixo a ignorância" e, por conseguinte, abaixo o despotismo. A associação dos amigos da verdade propôs um canal de comunicação entre os agentes da transformação sócio-política e o povo, a "boca de ferro", urna de sugestões que recebia a manifestação do público sobre todos os assuntos de interesse geral, que depois eram depurados e compartilhados em várias publicações periódicas como sendo a vontade geral.
Paradoxalmente, a noção de verdade desses revolucionários - Bonneville e Fauchet - tinha menos de racionalidade e mais de obscurantismo. Estava alicerçada na teoria da palavra criadora, de matriz teológica. O "legislador" teria a missão de promulgar a verdade una, revelar o não dito capaz de libertar o povo da tirania. A sacralização de princípios foi uma estratégia do grupo para atrair adeptos e tentar se sobrepor aos demais grupos políticos revolucionários. O interessante é que não se furtavam ao debate público, condenando a censura à livre manifestação de ideias, acima de tudo, como um sacrilégio. Mas, a opção por uma moral universal como fundamento da política comprometeu a busca por consensos.
No contexto da "revolução brasileira", a opinião pública é objeto de preocupação do grupo político-militar que tomou o poder do Estado à força. Alfredo Buzaid será um dos intelectuais de vanguarda destacado para realizar a proteção ideológica do regime instituído, seja como escritor, orador ou legislador, de direito e de fato. Em Defesa da Moral e dos Bons Costumes, o homem de letras promoverá a defesa da censura a todo tipo de manifestação pública contrária à moral cristã, adotada como fundamento da política dos militares, que visavam garantir a segurança nacional combatendo a ameaça comunista, sorrateiramente infiltrada por intermédio da difusão de obscenidades.
À guisa de garantia à liberdade de produção cultural, científica e artística legítimas, que manifestavam a genialidade nacional sem ferir a moral e os bons costumes, Buzaid envereda na doutrina de dispositivos jurídicos - parágrafo 8º do Artigo 153 da Constituição de 1969 e Decreto-lei 1077 - que tinham a finalidade de assegurar o controle da opinião pública e, consequentemente, o poder intervencionista. E esse controle foi tão extremo que chegou ao ponto de se proibir uma obra antes mesmo de ser publicada. A explanação sobre aspectos legais se fez necessário na medida em que conceitos essenciais não foram satisfatoriamente definidos. Portanto, o papel desempenhado pelo intelectual engajado neste caso foi de fazer proselitismo ideológico. De certa maneira foi bem sucedido, considerando que o regime explorou ideias do senso comum, consolidadas como parte da tradição cultural do povo, vide o apelo à moral cristã e à longa trajetória do direito romano cristão para manter os bons costumes.


Referencial teórico


            Em Opinião Pública e Revolução: aspectos do discurso político na França revolucionária, as publicações assinadas por dois revolucionários franceses, Claude Fauchet e Nicolas de Bonneville, responsáveis pelos princípios doutrinários fundamentais do Círculo Social, associação cultural bastante engajada politicamente, indica a relevância da apropriação da filosofia política de Rousseau durante o período revolucionário, com destaque ao conceito de "opinião pública", que contribui para esclarecer como viam a participação do intelectual no processo de mudança sócio-política.
Se, por um lado, o intelectual deveria ter compromisso com a verdade e ser reconhecido por isso pelo público, por outro lado, esse mesmo público dependia do intelectual para se tornar esclarecido, cumprir seu papel de vigilante do poder político - sendo instituído - e, assim, se tornar o soberano, no lugar da tirania. Portanto, para o Círculo Social o intelectual tinha o caráter de pedagogo militante e cumpriria sua tarefa com a própria capacidade de persuadir, visando moldar a opinião pública por intermédio da imprensa. Vale observar que, aparentemente, à época das luzes havia uma tendência a considerar a relação entre o intelectual e a formação da capacidade de julgar do público. Um esforço se faz necessário, então, para elucidar o processo de formação do conceito de opinião pública, com atenção a um vínculo com a noção teológica de "verbo criador".
            Na tradição filosófica, o conceito de "opinião" aparece na Modernidade relacionado à consciência que o indivíduo tem sobre a veracidade de uma proposição, seja esta assumida como científica ou como mera opinião, mas sempre válida; essa noção subjetiva de verdade é proposta por Hobbes.
Locke concebe a opinião como sendo incerta, por isso inferior ao conhecimento científico; sua probabilidade de aceitação depende da crença resultante de evidências e discursos persuasivos, mesmo que sem segurança quanto à verdade, mas, ainda assim, constituindo a base epistemológica da humanidade e de costumes, das tradições. Daí que com o tempo esse conhecimento provável se consolide como certeza tradicional, a opinião que nascera individual - subjetiva - se transformara em opinião comum; e o conhecimento possivelmente falso adotado como verdadeiro faz com que predomine o preconceito. Mas, há outra concepção de opinião, caracterizada como reputação, o que depende da avaliação pública, portanto, que nasce dos outros, do exterior para determinar o pensamento e ação do indivíduo, ou seja, determinar a conduta moral, a virtude ou o vício. Sendo assim, Locke define os costumes dos povos como originários da estima ou censura de ações diversas tendo como parâmetro a "lei da opinião", manifesta pelo consentimento, julgamento tácito dos membros da sociedade. Nesse sentido, essa "opinião pública" ganha um status de superioridade em relação às leis civis e divinas. Convém observar que "a opinião pública enquanto força racional capaz de exercer uma pressão sobre os indivíduos exige, para se caracterizar como instância julgadora, um processo de esclarecimento, um processo de formação do público, precisa tomar o lugar do preconceito, que nada mais é do que a perpetuação do erro como verdade." (NASCIMENTO, pág. 40)
            A opinião pública aparece na obra de Rousseau "como o conjunto dos costumes de um povo" e, nesse sentido, "não é uma força a ser produzida pelos homens de letras. Possui leis próprias e qualquer interferência em seus domínios só pode ter o objetivo de preservá-la". (NASCIMENTO, pág. 28) Há então um resgate do raciocínio de Locke, mas o cidadão de Genebra adota o conceito de opinião - estima - pública ora como um meio de corrupção moral, tal pensamento aparece no 2º Discurso, ora como um caminho à recuperação do humano que fora corrompido pelas relações sociais, tal como proposto nas Considerações sobre o Governo da Polônia.
            Por um lado, a degradação humana começa com o desenvolvimento da sociabilidade, pois o indivíduo que antes era puro pelo isolamento passa a valorizar a estima do outro e, com isso, a ser vaidoso, invejoso, a ter desprezo, vergonha, e essa competição de vícios resulta na desigualdade, que comprometeu a felicidade de todos; a sociabilidade acarretou o apreço à "consideração", o olhar do outro, e com isso um princípio de civilidade baseado nas aparências; parecer se tornou mais importante do que ser. Por esse viés, a estima está vinculada ao vício por conta da alienação, do julgamento falso da aparência. Há uma relação proposta entre estima pública e cidadania viciada; a submissão do indivíduo à opinião pública consiste num obstáculo à liberdade, isso por não valorizar o necessário à conservação da vida, por não empregar a razão a fim de evitar o julgamento preconceituoso, razão que media opinião e sentimento, preservando o que é útil e rejeitando o aparente que escraviza. Se o ser humano artificial, condenado ao modismo do aparente enseja preferências, desejo de exclusividade e desigualdade, urge uma educação que aprimore a capacidade de discernir, de julgar entre verdade e aparência.
Por outro lado, a reforma da condição humana corrompida pela sociedade da aparência é possível por intermédio do ajuste da opinião pública, o que demanda tempo e responsabilidade com os costumes - característicos do povo - a serem preservados. Eis a grande tarefa do legislador, aquele que persuade sem convencer e deve atuar sobre as opiniões do povo sem comprometer suas tradições. "Melhorai as opiniões dos homens, e seus costumes purificar-se-ão por si mesmo".[1] E mudar a opinião pública compreende mudar o julgamento público, considerando que a ética resulta da avaliação humana sobre tudo o que importa, que não há uma ética natural. Nesse ponto se nota a distinção entre o pensamento de Rousseau e o de seus contemporâneos da ilustração francesa, pois a difusão da ciência e das artes não resultaria no aprimoramento dos costumes, ao contrário, reforçaria a deturpação característica da sociedade humana ao promover alterações severas e irreversíveis. Sendo assim, a ideia de uma vanguarda intelectual com a missão de incutir a verdade na sociedade não coaduna com um povo livre.
            A ideologia da opinião pública, no contexto do século XVIII, implicava na valorização da liberdade de expressão, da imprensa livre, tendo em vista a formação da soberania popular, de uma "opinião pública esclarecida pela atuação pedagógica dos cidadãos da República das Letras". (NASCIMENTO, p. 28) Nesse sentido, há uma proposta de verdade como fundamento da política, daí o papel do intelectual como difusor dessa verdade para torná-la opinião pública e instrumento de vigilância dos responsáveis pelo governo; e, ainda, uma função sócio-política da literatura, que não deveria ficar restrita aos homens de letras, mas propagada ao povo para esclarecê-lo. Com isso, se tornou corrente um critério de julgamento da qualidade da produção literária: sua aceitação pelos leitores. De tal modo que o intelectual passou a formar o público que, por sua vez, seria o avaliador da produção cultural.  Mas, essa "qualidade" não significou um obstáculo à livre divulgação das ideias, pois, todas as opiniões seriam valorizadas, dignas de apreciação para servirem ao esclarecimento público, mesmo o raciocínio falso, que por negação cumpriria essa finalidade ao dar lugar à verdade. "Por acaso a verdade alguma vez foi derrotada quando atacada abertamente e quando teve a liberdade para defender-se? Refutar o erro abertamente é o meio mais seguro para destruí-lo". (NASCIMENTO, p. 61) Essa tendência de valorização da liberdade de expressão como meio de favorecer o predomínio da verdade esteve presente nos discursos revolucionários, tanto de escritores como de políticos, para os quais a censura serviria a propósitos políticos desonestos.
            O que aparece como defesa do pluralismo, da diversidade de pensamento, escamoteia um autoritarismo intocável, pois, embora haja liberdade e igualdade entre propostas distintas no debate público, a partir do momento que prevalece o discurso considerado a manifestação da verdade por uma das partes, não há mais lugar para a opinião diversa, que passa a ser sumariamente condenada. Critérios variados de aferição da verdade foram propostos, epistemológicos e políticos, mas, ao fim e ao cabo, o que determinaria a verdade seria a imposição à força de um grupo sobre os demais, seja por persuasão ou por violência mesmo.
            Essa defesa inconteste da liberdade de expressão estava alinhada com a promoção da transparência na gestão pública, logo, com a defesa do livre acesso de todos a informações de interesse público. Mas, paradoxalmente esse mesmo discurso visava um despotismo da verdade, ao qual todos deveriam se submeter tendo em vista alcançar a felicidade. Caberia ao escritor ser engajado no exercício da liberdade de expressão para manifestar a verdade que formaria a opinião, educaria o povo a manter-se atento sobre a condução da coisa pública, e, ao mesmo tempo, deveria combater as tentativas de censura disfarçadas sob a acusação de abuso da liberdade.
            Contudo, outra questão que permeia esse cenário é a importância do intelectual pedagogo e do filósofo militante, que costumava ter uma linguagem técnica, rebuscada para o povo, e que, portanto, precisaria descer das nuvens, adotar uma linguagem acessível para que a verdade alcançasse o receptor - que necessitava ser esclarecido - e prevalecesse na sociedade como uma moda duradoura. Claro que a intelectualidade deveria tratar apenas de saberes úteis à prática política, nada de saber especulativo, que não contribuiria à formação da soberania popular. Havia a percepção de um elo entre liberdade de expressão e soberania popular; opinião verdadeira e democracia; e, por outro lado, ignorância e tirania. Não por acaso os revolucionários franceses propuseram reformular a opinião pública, tendo em vista o fim do antigo regime, por intermédio de um sem-número de publicações que condenavam a censura e funcionaram como um tribunal da verdade, conforme o critério da aprovação popular dos discursos, que dependiam, claro, da capacidade de persuasão do autor. Combater os preconceitos e difundir a verdade, eis a tarefa dos homens de letras - no século XVIII - para contribuir ao aprimoramento da capacidade de julgar do povo; assim, consequentemente combateriam além da ignorância, a censura e a manutenção do despotismo, da tirania.
            No contexto da Revolução Francesa, surge uma associação política que abraça a causa da formação da opinião pública, assumindo como referência teórica o pensamento político de Rousseau e a Bíblia cristã: o Círculo Social. Entre as propostas revolucionárias encaminhadas pela associação - que implicavam na formação do potencial de julgamento do público, e cuja justificativa ideológica era baseada na ideia de verbo divino, como meio de regenerar a humanidade - se destacavam a reforma agrária, com divisão equânime das terras, e o exercício indireto da soberania popular entendida como vigilância das instâncias de poder. Portanto, o aspecto pedagógico-político do Círculo Social ía além da ilustração do povo - "visto sempre como oprimido, com sua voz abafada, ludibriado pelo poder tirânico do rei e de seus ministros" -, do combate aos preconceitos, tinha a pretensão de acabar com o despotismo dando voz ao povo; e não apenas em França, pois o projeto tinha a pretensão de mudar a humanidade. (NASCIMENTO, p. 79)
            O Círculo Social enfatiza o papel dos intelectuais na difusão da "verdade" para formar a opinião pública - e mantê-la afastada do preconceito que favorece o despotismo - por intermédio de um sistema operacional capaz de canalizar a vontade do povo. A operação seria implementada por caixas de sugestões espalhadas em locais de grande circulação popular. E a vox populi seria depurada pelos mais esclarecidos e honestos dos associados amigos da verdade. "Ao povo desprotegido, à deriva, era preciso dar uma voz, uníssona." (NASCIMENTO, p. 90) A ideia de soberania popular coaduna com a ideia de justiça, ao menos teoricamente, como se nota no Contrato, mas de difícil funcionamento operacional. A "boca de ferro" da associação foi proposta para funcionar como um canal transparente de participação política direta do povo, sem mediação de representantes.
            Rousseau é adotado como o filósofo - por Fauchet e Bonneville - do Círculo Social; o filósofo suíço é a fonte da ideia de opinião pública desenvolvida pelo grupo, e de outras ideias mais, apreendidas conforme a pertinência revolucionária, desde que devidamente ajustadas ao contexto, ou descartadas, quando consideradas incorretas ou inaplicáveis. Os membros do Círculo Social atribuem à filosofia política rousseauísta a razão - em restrospectiva, como apontado por NASCIMENTO ao estudar a crítica de La Harpe - da Revolução; a ideologia pretensamente universal do grupo, ancorada no conceito de opinião pública, é proposta como parâmetro para avaliar outros discursos, se posicionando "acima do jogo político concreto" com uma verdade oriunda da doutrina da palavra criadora. O Círculo Social propunha uma verdade preestabelecida, de caráter universal como fundamento à formação do povo para o exercício da política, entendida assim como um jogo condicionado por princípios, o que exclui a possibilidade de variação discursiva, da política como resultante do embate de interesses conflitantes em busca do consenso. Tudo se resume a uma disputa por supremacia sócio-política, embora se posicionassem como não sendo um clube.
            Algumas das críticas ao Círculo Social remetem ao aspecto obscuro de sua "verdade", forjada via ideia da palavra criadora e ligada à maçonaria, e à noção de política sustentada por princípios e certos propósitos, como a defesa da igualdade das propriedades, a despeito, por exemplo, da defesa da igualdade de direitos, tal como proposta pelos jacobinos e os Amigos da Constituição; Bonneville e Fauchet assumiram posição de vanguarda e cisma com outras associações mais conservadoras.  
            "Amigos da verdade e da justiça, uni-vos" tendo em vista a efetivação do ato pelo qual um povo se faz povo, de um novo "contrato social", mas conforme a ordem da natureza. Os líderes do Círculo Social apropriaram os conceitos centrais do Contrato de Rousseau, devidamente corrigidos, para fundamentar seu ideal de sociedade justa e feliz, sem tiraria. E o objetivo era começar na França, mas espalhar a boa nova pelo mundo.
            A leitura do Contrato feita por Fauchet e Bonneville propôs um ajuste da obra filosófica ao contexto revolucionário para ser útil, pois os conceitos apropriados comporiam uma linguagem para elucidar o sentimento mobilizador. A ponto de, por exemplo, haver uma superação do pessimismo de Rousseau quanto ao desenrolar da história das sociedades, atribuído à época em que viveu, antigo regime, que eles transformam numa visão otimista da liberdade instituída pela revolução, instrumento de redenção da humanidade à ordem natural. Considerando o suíço um dos eleitos pela providência divina para servir à fundação do novo pacto social francês, identificam no texto do filósofo o diagnóstico da crise francesa, a compreensão ampla do problema sócio-político e a solução prenunciada. Fauchet ainda combinou ideias do direito natural com o cristianismo maçônico para explicar a sociabilidade humana natural.
            Uma das correções aos princípios o direito político do Contrato diz respeito à crítica da representação política, quanto ao exercício do poder pelo povo soberano; Fauchet confunde soberania com governo para justificar a delegação dos poderes - inclusive legislativo - a  representantes. Nesse sentido, propõe o Círculo Social como veículo para a sociedade se exprimir sobre a condução do governo e para vigiar os ocupantes dos cargos públicos. "A soberania, enquanto ato de uma vontade coletiva, não surge do nada. Deve ser produzida. E não se trata apenas de criar as condições para que se manifeste. É necessário mesmo inventá-la." (NASCIMENTO, p. 111) "A vontade geral será anárquica e confusa se não for criada através de órgãos que a interpretem e a coloquem em ação". (La Bouche de Fer, nº 31, dez./1790, apud NASCIMENTO, p. 111) Claro que o exercício da soberania proposto via Círculo Social se daria efetivamente por intermédio de seus membros destacados, dentre os mais capacitados, instruídos, que seriam os vigilantes do poder político exercido pelos representantes do povo.
            Outro conceito do Contrato apropriado pelos revolucionários é o de "legislador", relacionado com a filosofia, capaz de promulgar a verdade; a tarefa é assumida pelos ativistas do Círculo Social, dispostos a contribuir com a invenção do Estado político, com a constituição da identidade do povo e com a preservação das leis por tempo indeterminado, atuando como censores da opinião pública para conservar os costumes. Daí a importância do ideal de verdade como aglutinador daqueles simpáticos à unidade em torno da identidade da nação. "O espírito de facção é incompatível com a busca e a difusão da verdade. Por isso, o Círculo Social deve estar acima de todas as organizações comuns, sua função é superior." (NASCIMENTO, p. 119) A pretensão de universalidade do Círculo Social implicava no papel de executor da vigilância pública, principalmente como censor, estando próximo ou se confundindo com a soberania nacional para proteger a unidade do povo.
            Ainda no rol de conceitos do Contrato apropriados por Bonneville e Fauchet, a ideia de religião civil ou sentimentos de sociabilidade que propiciam a unidade e o apego às leis, também será útil para explicar a Revolução como obra da divina providência e agregar um caráter sagrado aos princípios fundamentais do levante, tal como proposto pelo Círculo Social: "a realização do ideal da fraternidade através do grande pacto constituinte de uma nação livre e soberana, realização esta que depende fundamentalmente da ação conjunta de formação e amplificação da voz pública pela redescoberta da força da palavra". (NASCIMENTO, p. 125) "Uma religião é necessária para sancionar todas as sagradas instituições da pátria". (FAUCHET, C. Mandement de Claude Fauchet. Paris, Imprimerie du Cercle Social, p.1, apud NASCIMENTO, p. 125) A religião indica e reforça a importância da palavra criadora para a efetivação da concórdia, do novo pacto social instituído na prática.
            A teoria da palavra criadora adotada por Bonneville é o meio eficaz para o conhecimento da verdade ocultada e, então, para viabilizar a prática política transformadora que resultará na felicidade universal. Missão arrogada pelos amigos da verdade, homens de letras que, assim como os sacerdotes antigos, cuidariam de revelar os mistérios do fogo sagrado da palavra para tornar os cidadãos livres. Vox populi, vox creatio. O cristianismo maçônico legitimava o modus operandi da participação política do povo e a mediação inescusável do Círculo Social. A palavra que no evangelho joanino iniciou a existência, agora indicaria o caminho da ordem da natureza - Jeová, segundo Bonneville - à sociedade humana. Sendo assim, a censura à liberdade de expressão consistia, além duma tirania abominável, num sacrilégio. "Sem a liberdade da palavra não há participação da vida do espírito. A escravidão é a ausência da possibilidade de expressão." (NASCIMENTO, p. 136) "A palavra livre do povo, numa verdadeira república, circula em toda parte, assim como o sangue circula por todo o corpo. Ela é vida de um povo livre." (NASCIMENTO, p. 148)
            A política é o ambiente próprio da opinião, das opiniões divergentes que se dispõem a buscar um consenso por intermédio do diálogo. Sendo assim, não há lugar para a verdade absoluta, predeterminada, na disputa política, o que compreenderia uma negação do diálogo, logo, da política, pois, a defesa de uma opinião atrelada à "verdade", e que predomina, corresponderia à supressão de qualquer outra opinião divergente. O que os associados do Círculo Social fizeram foi justamente estabelecer uma verdade - preceito moral universal - como leitmotiv da política, postura que seria útil até para justificar a violência; claro que, nesse caso, conciliar moral e política é uma tarefa inglória, pois, ou prevalece a moral determinada e se inviabiliza a política, ou prevalece a política, a despeito da moral.


Estudo de um caso brasileiro. Proximidades e distanciamentos com os homens de letras da vanguarda revolucionária francesa


"Não aceitam o conflito. Sua palavra é uma só. Seu vocabulário é conhecido: República una e indivisível, inimigo público, complô, traição, conspiração, forças do mal, poder das trevas." (NASCIMENTO, p. 156)

Considerando que ações políticas de grupos organizados visando a "transformação radical da sociedade" devem ter uma "exigência doutrinária e ideológica" (NASCIMENTO, p. 156), parece bem plausível considerar a "revolução brasileira" - golpe de Estado - perpetrada por militares no Brasil, à luz de um de seus apologistas de primeiro escalão, como a busca pelo estabelecimento de uma verdade una, uma ordem sob a proteção de Deus, como enuncia o primeiro parágrafo da Constituição.
Em 1970, o então ministro da justiça do governo mais violento da ditadura militar, gestão do Gen. Médici, publicou um texto comentando o parágrafo 8º do Artigo 153 da Constituição da República Federativa do Brasil, de 1967, bastante alterada pelos militares em 1969. No livreto Em Defesa da Moral e dos Bons Costumes, Alfredo Buzaid[2] considera que "o Art. 153, § 8, estabeleceu como regra a liberdade de pensamento e como exceção a intolerabilidade de publicações contrárias à moral e aos bons costumes". (BUZAID, p. 2).

Art. 153. A Constituição assegura aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade dos direitos concernentes à vida, à liberdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
(...)
§ 8º É livre a manifestação de pensamento, de convicção política ou filosófica, bem como a prestação de informação independentemente de censura, salvo quanto a diversões e espetáculos públicos, respondendo cada um, nos termos da lei, pelos abusos que cometer. É assegurado o direito de resposta. A publicação de livros, jornais e periódicos não depende de licença da autoridade. Não serão, porém, toleradas a propaganda de guerra, de subversão da ordem ou de preconceitos de religião, de raça ou de classe, e as publicações e exteriorizações contrárias à moral e aos bons costumes.
[3]
(...)

            Deixando de lado o modo muito questionável como fora promulgada a Carta Magna, ou sua reforma, mas, ponderando o texto que vigorou por quase duas décadas, estabelecendo os direitos e garantias individuais, não é possível ignorar que representou um meio de legalizar a censura, a perseguição e a repressão, que de certa maneira já haviam sido regulamentados pelos Atos Institucionais, outra excrescência jurídica.
            O papel do escritor, nesse caso, em nada coaduna com o propósito pedagógico do legislador de Rousseau, aquele que persuade sem convencer, comprometido com a formação da capacidade de julgar do público. Seu intento de corroborar a norma que alteraria de maneira brutal o modo de vida dos cidadãos, não contribui à manutenção dos costumes característicos do povo, à manutenção da tradição cultural, como se poderia considerar, pois, a aludida "defesa da moral e dos bons costumes" compreendia meramente a defesa, a todo custo, do próprio arcabouço jurídico militar que, por sua vez, era um instrumento de manutenção do poder despótico. À pretensa garantia de liberdade de expressão, proposta no parágrafo constitucional, seguia uma severa restrição às críticas - "atentatórias à segurança nacional" - de quaisquer aspectos da ordem imposta pela força das armas. (BUZAID, p. 6) Tanto é que o publicista não consegue esclarecer a norma ao expor as razões da restrição, recorrendo a uma obscura noção de "obscenidade" - e "seus efeitos deletérios sobre as pessoas e as nações" - como pretexto à censura. E a fim de justificar a censura, apela a um sofisma medicinal, manifesto pela autoridade de um médico romeno desconhecido, a exemplos de outros povos que a adotaram, como alguns africanos e europeus; e ainda, como não poderia deixar faltar, apela à ameaça comunista internacional, que escamoteada em publicações pornográficas lograria a dissolução da família, num primeiro momento e, então, conduziria à subversão da ordem política. Recorre a exemplos de textos com mensagens subliminares comunistas; cita alguns periódicos franceses que divulgavam a produção universitária, publicados à época do levante estudantil de Maio de 1968, e que propunham a liberdade sexual, por conta da relação do tema com as contradições da sociedade capitalista. Ao tratar do alcance da norma acaba reconhecendo que o sentido é de proibição total do que for "imoral" e, assim, tornar crime a reles pretensão de publicar obscenidades.
            A prioridade ideológica do Estado de exceção era o combate ao comunismo, era o que tornava necessário sacrificar a liberdade civil. Em troca, ofereciam a garantia da segurança nacional. A "Constituição militar" era taxativa quanto à condenação do indesejável, da subversão da ordem e da publicação de obscenidades, sugerindo que se poderia aplicar a Lei sem a necessidade de regulamentação; o governo tinha a prerrogativa de implementar a censura e a repressão à vontade, instituindo todo tipo de órgão e práticas para um fiel cumprimento da sua Carta Magna. Nesse sentido, foi sancionado o Decreto-lei 1077, que certamente contou com autoria de Buzaid, que estabeleceu a "verificação prévia", censura a publicações julgadas pornográficas, subversivas, antes mesmo de sua produção ou distribuição, sob a responsabilidade da Polícia Federal. Com esse mote do combate ao comunismo se defendiam das acusações de que havia a imposição de uma censura geral.

Quem estudou a teoria da informação sabe que os periódicos, o rádio e a televisão constituem, nos nossos dias, os meios mais eficazes para dirigir a opinião pública. É por meio deles que o comunismo internacional atua sobre o povo, invadindo sub-repticiamente os lares. E os seus agentes, adrede preparados, se infiltram em todos esses meios de comunicação para transmitirem suas ideias dissolventes. (BUZAID, p. 18)

            Eis o propósito central do parágrafo 8º do Artigo 153 da "Constituição militar", dirigir a opinião pública. Considerando o referencial teórico aqui estudado, a "exigência doutrinária e ideológica" para esse controle do julgamento público não é um fenômeno de "nossos dias". A atualidade do Estado de exceção foi o discurso que agregou obscenidade e subversão como subterfúgio ao golpe, manutenção do poder político e à censura, que prevaleceu sobre a liberdade de expressão.
A tarefa do escritor de justificar a ideologia de um regime que tomou o poder político com o uso da força é árdua. Diante do amparo legal estabelecido pelos generais, reconhece que é a doutrina que deve dirimir dúvidas a respeito da falta de definição precisa sobre o que seria uma produção cultural obscena, contrária à moral e aos bons costumes. Evidentemente a interpretação será a mais dilatada possível para a censura abarcar todo tipo de mudança de costume, de padrão de pensamento e comportamento, mesmo se tratando de uma exceção à regra, que seria a liberdade de pensamento, como afirma Buzaid. O recurso ao código penal italiano - o mesmo que serviu a Il Duce - para resguardar a moral e bons costumes do cidadão brasileiro foi um aparente contrassenso, considerando o aspecto nacionalista do propósito; além disso, nem mesmo o apoio de comentários elaborados por dois juristas italianos[4] torna a definição europeia mais precisa, ao contrário, era tão obscura quanto a brasileira. A respeito de críticos ao descompasso cultural do país em relação aos demais, responde com a tendência mundial expressa na Convenção Internacional para a Repressão da Circulação e do Tráfico das Publicações Obscenas, Aberta à assinatura, em Genebra, 12 de setembro de 1923, proposta pela Liga das Nações; o Brasil se tornou signatário em 1931 e a ratificação foi reforçada pelo Decreto 21.188/1932, assinado por Getúlio Vargas, determinando a execução imediata do acordado em Genebra.
            Com argumentos frágeis, facilmente refutáveis, o intelectual governista logrou êxito ao explorar e promover julgamentos comumente presentes em grande parcela da sociedade; o dito senso comum ganhou status de razão oficial. Não à toa "ninguém se insurgiu contra essa legislação penal, considerando-a ofensiva aos foros da inteligência". (BUZAID, p. 24)
            Se os revolucionários franceses amigos da verdade recorreram à doutrina do verbo divino para credenciar sua prática política, o intelectual da "revolução brasileira", que propôs a defesa da moral e dos bons costumes como prioridade do Estado, vinculou esse propósito a princípios cristãos, tendo em vista se posicionar "acima do jogo político concreto". A reprovação de obscenidades compreendia preservar a "civilização cristã"; a concórdia entre os cidadãos seria forjada por intermédio da mesma religião que serviu para agregar diferentes povos em todo o enorme território e em toda a história do que se tornou "brasileiro". Ao considerar que "bom costume é a moralidade pública, que não se pode contrariar sem cair na desestima social"[5] e serve de fonte ao estabelecimento do direito, das leis, retoma a tradição legislativa romana cristã, lembrando que "por sua base ética, que deu larga aplicação dos princípios morais no campo sexual mediante uma série de providências, que objetivavam não só a reprimir penalmente, mas ainda a prevenir tudo que pudesse ser atentado ao pudor ou tivesse caráter de obscenidade, evitando por tal modo o incitamento ao pecar". (BUZAID, p. 36) Lembra ainda que a pudicitia no direito romano cristão não se restringia ao tratamento da questão sexual, mas, sobretudo, da "correção no cumprimento dos deveres que estão fora do direito, a honra e a consideração pública"[6].
A combinação do direito romano com o determinismo moral cristão serviu de base a um modelo de ordenamento jurídico, mas, no século XIX, quando prevaleceu o positivismo jurídico, passou a vigorar a tendência do rompimento entre a moral cristã e o direito, o que se consolidou com a teoria marxista e a ideia de centralidade da economia, postulando o direito como instância subalterna "do sistema de produção"; como se não bastasse, esse marxismo ainda propôs a supressão do Estado e de suas normas jurídicas. (BUZAID, p. 37) Uma das consequências dessa ruptura entre moral e direito foi o recrudescimento da "pornografia, utilizada como instrumento político de desagregação social". (BUZAID, p. 38) E o descalabro fora diagnosticado inclusive pelo Papa Pio XII, que alertou sobre a ameaça das manifestações de imoralidade sobre o mundo católico e, por isso, recomendou a recuperação do vínculo entre a moral cristã e o direito. A moral como fundamento do direito seria o modo de educar a opinião pública, de retificá-la para preservar a família brasileira; e isso indicado pela autoridade de um Pontífice. E assim fica esclarecida a fonte de inspiração do legislador-mor do general Médici, o magistrado Alfredo Buzaid.


Conclusão


A opinião pública manteve certo grau de autonomia, foi relativamente contemplada pelas "vanguardas revolucionárias", tanto é que houve um nível expressivo de corroboração popular dos discursos regeneradores, haja vista, por exemplo, a presença de grande público interessado nas conferências do abade Fauchet e o nível de colaboração e aprovação aos governos militares, entre 1964 e 1985, inclusive após o fim do regime. Além disso, a opção por princípios cristãos não foi fortuita em ambos os casos.
Houve uma discrepância crucial entre esses dois movimentos aqui aludidos. Enquanto Bonneville e Fauchet defenderam de forma inegociável a liberdade de expressão e condenaram a censura, como parte de sua ideologia e estratégia de ação, Buzaid optou pela justificação da censura ampla em nome da moral. Posto isso, em decorrência desses posicionamentos, os franceses defenderam mais informação e menos despotismo; o brasileiro defendeu mais moral e menos insurgência. Àqueles interessava a imprensa livre para expressar a vontade geral dos cidadãos, emancipados por essa condição de acesso ao esclarecimento público. A este mais valia a verificação prévia do publicável para depurar o que seria pertinente ao interesse público.
Mas, tanto os revolucionários franceses, aqui mencionados, como os revolucionários brasileiros, representados por Buzaid, negaram a política em nome de uma verdade absoluta, de caráter sagrado. Venceu a moral, perdeu a política.

           
Bibliografia

BUZAID, Alfredo. Em defesa da moral e dos bons costumes. Brasília, Ministério da Justiça, 1970.
Constituição da República Federativa do Brasil, de 1967. Atualizada Pela Emenda Constitucional Nº 1, de 1969. 17ª ed. São Paulo, Saraiva, 1979. (Legislação Brasileira)
NASCIMENTO, Milton Meira do. Opinião Pública e Revolução: aspectos do discurso político na França revolucionária. São Paulo, Edusp/Nova Stella, 1989.




[1] ROUSSEAU, J.-J. Considerações sobre o governo da Polônia. Tradução, apresentação e notas de Luiz Roberto Salinas Fortes. São Paulo, Brasiliense, 1982; p. 89, apud NASCIMENTO, Milton Meira do. Opinião Pública e Revolução: aspectos do discurso político na França revolucionária. São Paulo, Edusp/Nova Stella, 1989. p. 53.
[2] "Em 1960 foi nomeado pelo Governo Federal para elaborar o Anteprojeto do Código de Processo Civil, o qual acabou sendo apresentado por ele quatro anos depois. Em 1966, assumiu o cargo de diretor da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. O exercício nas funções de Diretor foi interrompido duas vezes, por ter de assumir a Reitoria da Universidade de São Paulo, em cujo exercício permaneceu cerca de um ano. Em 1969, foi nomeado vice-reitor da Universidade de São Paulo. Em 1967, por ato do Ministro da Justiça, foi nomeado Coordenador da Revisão dos Códigos Civil, Penal, Penal Militar, de Processo Penal, de Processo Penal Militar, de Sociedades, de Títulos de Crédito, de Navegação Marítima, de Contravenções Penais, de Execuções Penais. Em outubro de 1969, foi nomeado Ministro da Justiça, sendo um dos mentores intelectuais do Código de Processo Civil que entrou em vigor em 1974. Permaneceu no Ministério da Justiça até 14 de março de 1974." Dados biográficos obtidos de http://www.stf.jus.br/portal/ministro/verMinistro.asp?periodo=stf&id=18, em 10/06/2015. O texto de sua autoria ora analisado é a publicação de uma parte da série de conferências apologéticas à doutrina da segurança nacional: I- Rumos políticos da Revolução Brasileira ; II- Em defensa da moral e dos bons costumes; III- Marxismo e Cristianismo; IV- O Estado federal brasileiro; V- Renovação da Ordem Jurídica Positiva. Foi membro da Association Henri Capitant des amis de la culture juridique française e da Associação Italiana de Processo Civil.
[3] Constituição da República Federativa do Brasil, de 1967. Atualizada Pela Emenda Constitucional Nº 1, de 1969. Emenda promulgada pela junta Militar que governava o Brasil: Augusto Hamann Rademaker Grünewald, Aurélio de Lyra Tavares e Márcio de Souza e Mello, ministros da marinha, exército e aeronáutica, respectivamente.
[4] MANZINI, Vincenzo. Diritto Penale Italiano; e MAGGIORE, Giuseppe. Diritto Penale. Citado por BUZAID, p. 22.
[5] Raciocínio proposto por RUGGIERO e MAROL. Instituzioni di Diritto Privato. Citado por BUZAID, p. 35.
[6] BIONDO, Biondi. Il Diritto Romano Cristiano. Apud BUZAID, p. 24.