sexta-feira, 14 de abril de 2017

O último dia

O que você faria se soubesse que tem somente mais um dia de vida?


Pedro acordava todos os dias às cinco da manhã, detestava faltar ao trabalho. Os motivos e justificativas para sua resiliente assiduidade, porém não eram tão nobres. Era um sujeito convencional, tíbio mesmo e temia apenas ser demitido. Bem, há quem pense que seja perfeitamente normal que um sujeito se preocupe em perder seu emprego e, por isso, justifique o temor. Mas, convenhamos, viver uma vida de trabalho sob a ameaça da demissão não é fácil pra ninguém, não é nada saudável. E o ambiente competitivo de sua empresa criava esse tipo de expectativa. A meta ou a rua, esse era o mantra do terror. E, embora não gostasse nem um pouco do seu trabalho, detestava ainda mais a ideia de mudar de emprego, tinha verdadeira ojeriza por mudanças. Também considerava vagabundos "aqueles sujeitos desempregados". Pensava assim, mesmo daquelas pessoas nas filas de emprego por aí. "Mais uma arruaça!" Detestava arruaça. Paranoicamente, imaginava sempre haver alguém conspirando para puxar-lhe o tapete no trabalho e tomar-lhe a promoção; mesmo sabendo que nos últimos dez anos não houvera promoção alguma em sua empresa. (- É uma questão de contenção de despesa! Afirmava a chefia; – nossos colaboradores precisam compreender - complementavam)[1]. Mesmo assim, cogitava ele, "quando forem liberadas as promoções, quero estar qualificado".
Na última terça-feira, ontem, porém, Pedro faltou ao trabalho, - coisa difícil! O pessoal do RH informou que - foi por “problemas de saúde”. Teve que ir ao consultório médico pegar o resultado de uns exames que havia feito – ultimamente vinha sofrendo de fortes dores de cabeça e nos últimos dez anos, como dito, recusava-se a faltar, nem mesmo tirava suas folgas-prêmio. No entanto, um desmaio na última semana o levou a uma quebra de sua rotina "a coisa apertou, tive que procurar um médico".
Ficamos sabendo depois que ele tinha recebido um diagnóstico de câncer na cabeça que dizia o seguinte: câncer na base anterior de seu lobo frontal. Para o médico, o câncer estava tão próximo de seu hipotálamo que na verdade ele não conseguia explicar como Pedro ainda estava vivo, andando e se comunicando.
Talvez as doses cavalares de analgésicos que ele vinha tomando nos últimos dias pudesse explicar alguma coisa, mas sua sobrevida para o experiente neurologista era um verdadeiro fenômeno. Ao que se sabe o médico foi duro, direto, sem rodeios no diagnóstico e explicou como quem lesse um obituário: - Bem, senhor Pedro, as noticias não são boas. O tumor em sua cabeça encontra-se já em estado tão avançado que há em seu crânio uma verdadeira bomba relógio. Tratar-se de um tumor maligno cuja multiplicação celular acontece numa taxa tão exponencialmente alta que sua sobrevida pode ser calculada em horas até que o câncer atinja seu hipotálamo e detone seu sistema nervoso central colapsando inclusive o sistema nervoso autônomo, o que implicará numa consequente falência dos seus órgãos. É quase certo que o senhor dispõe de no máximo mais algumas horas de vida.
Pedro ouviu tudo aquilo com um olhar distante e vazio, parecia meio desligado. Na verdade estava concentrado, apenas lembrara que havia esquecido seu grampeador em cima da mesa, certamente um de seus colegas estaria usando seu grampeador - cogitava.
Para o médico não era possível decifrar na expressão facial de Pedro se ele atinava para a seriedade da situação, para a gravidade de seu diagnóstico ou se estava em estado de choque. O estranhamento do médico só aumentou quando viu seu paciente se levantar da cadeira e sair da sala cumprimentando-o, desejando-lhe um bom dia e até breve. Diante disso, Dr. Renato, experiente oncologista, não teve dúvidas, de fato seu paciente estava em estado de choque. Pensou em perguntar se Pedro estava acompanhado, mas hesitou...
Pedro não tinha parentes na cidade e há pelo menos dez anos não entrava em contato com sua família. O motivo não se sabe, mas tudo indica que tenha simplesmente se afastado e deixado de se comunicar. Logo o tempo e a distância tornaram-se eles mesmos um constrangedor empecilho. A partir daí por bloqueio ou vergonha passou a evitar o contato. Razão pela qual os laços fraternos foram se esgarçando como um tecido velho. Tanto que sequer lembrava se seus pais estavam vivos ou mortos. Ao que parece essas coisas de família não lhe interessavam mais, entediavam-no mesmo.
O som estridente de seu despertador soou às cinco da manhã, era então quarta-feira. Não costumava tomar banho antes de sair para trabalhar. Usava lenços umedecidos. Apesar de ter um moderno e agradável chuveiro em seu banheiro, seguiu a mesma rotina de sempre. Levantou-se. Sempre pelo lado direito da cama. Enfiou os pés nas sandálias. Desligou o alarme.  Deu a volta na cama e apanhou seu relógio de pulso que deixava na estante, sempre do lado oposto. Não se espreguiçou, apenas rumou para o banheiro. Parou diante do espelho e se olhou por uns segundos, como se houvesse notado alguma coisa estranha, mas, nada. Começou sua sessão de lenços umedecidos nas axilas, no pescoço, nas genitálias. Em seguida jogou um pouco de água no rosto. Fez um gargarejo. Cuspiu na pia. Olhou de um lado para o outro o rosto, "a barba ainda esta boa". Vestiu-se andando. Não costumava presta atenção em detalhes, a camisa tinha dois vincos na manga, a calça também.
Aproxima-se do horário em que apanha o 907, no ponto em frente ao seu edifício. "Se perder o 907, vou ter que pegar pelo menos duas conduções até o trabalho; não quero correr o risco de me atrasar". Tomou um gole de café amanhecido e frio mesmo e saiu. 
Apesar de pegar o mesmo motorista e o mesmo cobrador há quase dez anos, não costuma falar com ninguém e, quando falava, balbucia somente monossílabos ora ou outra dissílabos, se necessário. Com os outros passageiros, nem pensar, preferia preencher as palavras cruzadas que baixara num aplicativo do celular. No ponto próximo a Paulista desceu de cabeça baixa e andou mais duas quadras, atravessando por uma praça com belos jardins. Nem conseguira perceber que apesar do clima as azaleias floresciam. Entra no edifício Montreal, o elevador é lento, cheio e o ar condicionado está quebrado, são pelo menos cinco paradas até chegar ao seu piso, mesmo assim, insere seu cartão exatamente no horário.
Sua mesa fica distante de qualquer janela, em todo caso a mais próxima dá para a parede do prédio vizinho, é cinza o dia todo! Em sua baia descobre que de fato alguém usou seu grampeador, "provavelmente Renato, o gordo, está sem grampos"! Olha meio emburrado para os lados e da início a sua rotina. Basicamente, carimbos, registros eletrônicos e escaneamento de documentos pertinentes a contratos de seguros. A julgar pelo volume de documentos em sua mesa o dia vai ser longo. Dia comum, maçante. Apesar da insatisfação e da rotina, vendeu todas suas férias nos últimos anos. Quem sabe venderia a deste ano também!?
Aproxima-se a hora do almoço, seu colega de baia convida-o para almoçar: - hoje tem feijoada no restaurante do primeiro andar! - Não, obrigado, pedi uma marmita. A marmita barata já está quase fria, o alface dentro da comida já está murcho, e o tomate por cima da comida dá ao arroz um desagradável sabor azedo. Come tudo na sala do refeitório da empresa. Tem pressa, "há muito o que fazer"!
O retorno rápido ao trabalho lhe causa alguma náusea, mas nada que alguns analgésicos não resolvam. Desde há algum tempo passou a tomar analgésicos por qualquer motivo. Durante o resto da tarde, chega a ouvir o ruído da chuva que nos últimos dias tem caído no meio da tarde. O clima varia tanto nesta época do ano em São Paulo que se tem a impressão de ter vivido pelo menos três estações em único dia. Calor ao meio dia, chuva no meio da tarde e frio ao entardecer. O tempo escoa lento, porém implacável. Mas, a maçante rotina o detém entre carimbos, transcrições e digitações.
No fim do expediente algo de inusitado acontece, os colegas o convidam para um happy hour, - Pedro, hoje vamos tomar uma cerveja e ver jogo no bar lá da praça! Quer vir conosco? Diante do embaraçoso convite recusa. - Não. Tenho umas coisas para resolver lá em casa. - Ok!
No fim da tarde, um minuto de distração sabe-se lá com o que o atrasa, mas, enfim, consegue pegar seu ônibus, que, no entanto, quebra a cerca de três quadras de sua casa. Sem alternativa, decide seguir a pé o resto do caminho. O dia ainda estava claro e a chuva do meio da tarde havia deixado o céu azul e límpido como nunca para este horário. O frescor do ocaso favorecia e as pessoas se juntavam nos bares dá calçada para o happy hour. Não prestou muito atenção, como sempre baixou a cabeça a apertou o passo rumo ao seu destino.
Na porta do apartamento sentiu algo estranho. Cismou por uns segundos antes de enfiar a chave na fechadura, ponderou..., parecia considerar algo, mas mesmo assim, num movimento quase que mecânico, quase que automático, virou a chave. Tonteou e caiu ali mesmo. Só sobre a soleira...
Encontraram-no assim mesmo no dia seguinte, metade do corpo para dentro do apartamento e as pernas para fora. Comentavam no dia seguinte durante seu velório.
Após o enterro os colegas de trabalho resolveram tomar uma num boteco ali mesmo, próximo ao cemitério. Foi Renato, o gordo, herdeiro oficial das miudezas de escritório de Pedro, quem puxou o assunto...
- O que vocês fariam se soubessem que tinham somente mais um dia de vida?




[1] Muito embora, os últimos três balancetes trimestrais da empresa tivessem apresentado apenas índices positivos.

7 comentários:

  1. Eu faço as coisas assim mecanicamente é interessante como a rotina nos consome, absorve nossas vontades e inspirações. Eu não sei o que faria no meu último dia.

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  2. Dificil de vê como a gente se rende pouco a pouco ao sedentarismo fisico e mental! Somos assim mesmo...peças mecanicas q por algum tempo ou por todo tempo, vive para morrer a prestaçào!

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  3. Muitos de nós sobrevivemos em meios sociais repletos de pessoas com vidas comprometidas pelo sedentarismo fisico e mental.
    Poderiamos culpar o governo, a situação econômica e até a propria sociedade atual q preda o seu proximo de todas as formas! A competitividade do mundo atual nos mata aos poucos, como um carnê das casas bahia...a prestação!

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  4. Mandou bem. Embora essa literatura de caráter existencialista seja um bocado deprimente, para mim, desse modo destaca o ponto nevrálgico ao leitor. Vou compartilhar com muita gente, na esperança de que leiam e haja o efeito catártico esperado.

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  5. Iria passar esse dia numa cachoeira linda. Pode até ser a Cachoeira de Meu Deus em Eldorado...Hahaha....
    Adorei o texto que também pode ser tema pra Produção de Texto com meus alunos!!!

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  6. Gostei do texto . É pra se refletir mesmo a vida passa muito rápido...faltar no trabalho pra pegar um cinema com quem se ama
    não tem preço . Bjs

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  7. Acho que vivemos nossos dias enfurnados nas diversas tarefas e não damos conta do verdadeiro valor da vida. Qualquer dia pode ser o último, mesmo assim, muitas vezes nos preocupamos mais em 'fazer'do que em 'ser'.

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